The Project Gutenberg EBook of Memorias sobre a influencia dos
descobrimentos portuguezes no conhecimento das plantas, by Conde de Ficalho

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Title: Memorias sobre a influencia dos descobrimentos portuguezes no conhecimento das plantas
       I. - Memoria sobre a Malagueta

Author: Conde de Ficalho

Release Date: February 12, 2009 [EBook #28055]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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                                MEMORIAS

        SOBRE A INFLUENCIA DOS DESCOBRIMENTOS DOS PORTUGUEZES

                                   NO

                        CONHECIMENTO DAS PLANTAS




                                MEMORIAS

        SOBRE A INFLUENCIA DOS DESCOBRIMENTOS DOS PORTUGUEZES

                                   NO

                        CONHECIMENTO DAS PLANTAS


                     I.--MEMORIA SOBRE A MALAGUETA


                              APRESENTADA

                ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA

                                 PELO

                           CONDE DE FICALHO

                 SOCIO CORRESPONDENTE DA MESMA ACADEMIA
               LENTE DE BOTANICA NA ESCOLA POLITTECHNICA
                             ETC. ETC. ETC.


                                LISBOA
                       TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA

                                 1878




INTRODUCO


Os descobrimentos dos portuguezes nos seculos XV e XVI constituem uma
das feies mais salientes da poca, porventura a mais notavel da
historia. N'aquelle periodo em que o espirito humano, quebrando as peias
das severas e estreitas tradices da edade mdia, e parecendo ter a
intuio de tudo quanto  elevado e bello, abre novos horisontes nas
sciencias, nas lettras e nas artes; os limites do mundo physico
tornam-se, como os do mundo moral, apertados para as aspiraes de uma
grande e forte gerao, e rasgam-se com elles, perante o seu singular
poder expansivo. Um povo pequeno, situado no extremo occidental do mundo
at ento explorado, lanando-se em perigosas e heroicas aventuras nos
mares incognitos e tenebrosos, d o primeiro impulso a uma serie de
descobrimentos, que, em menos de um seculo, dobram perante as naes
maravilhadas a exteno das terras conhecidas. Mares e climas novos,
raas humanas ignoradas, animaes e vegetaes estranhos e variados se
patenteiam, em rapida successo, a uma gerao curiosa e avida de
informaes. Mais de uma vez se tem apontado, o quanto estes novos
aspectos do mundo physico deviam influir nos animos, alargando as idas
e destruindo antigos preconceitos; mas no cabe n'este trabalho o
quadro, nem mesmo o esboo, de taes transformaes.

Limitando-nos rigorosamente ao nosso assumpto,  licito affirmar, que em
poca alguma se accrescentaram tantas e to variadas frmas vegetaes ao
peculio das j conhecidas. A vegetao inteiramente nova das terras de
Santa Cruz, ou da Africa meridional, e as ricas floras da India, do
archipelago malayo e da China, antes apenas entrevistas e agora
observadas de perto, enriqueceram, por modo sem egual em to curto
periodo, o conhecimento do mundo vegetal.

 certo, que as plantas se no estudaram ento systematicamente, e
muitos annos decorreram, antes que as frmas vegetaes se grupassem com
methodo, e se descrevessem com rigor. Todavia, grande numero de ricos e
uteis productos vegetaes attrairam desde logo as attenes, e
encontramos dispersas nas obras dos navegadores e escriptores
portuguezes e hespanhoes, muitas noticias curiosas, e muitas informaes
exactas, sobre a sua naturesa e a sua origem. Basta citar, entre muitos
outros, Duarte Barbosa, Thom Pires, Garcia da Orta, Christovo da
Costa, Oviedo, e Nicolau Monardes para provar com quanto interesse, e em
muitos casos, com que espirito do rigor scientifico se observam as
plantas ento descobertas.

Estudar sob este ponto de vista a historia dos nossos descobrimentos, e
do nosso dominio nas terras da Africa, da Asia e da America, buscando
nos documentos contemporaneos as provas do conhecimento que os
portuguezes tiveram dos vegetaes, e esclarecendo  luz da moderna
sciencia alguns pontos duvidosos ou obscuros das suas narraes, seria
sem duvida muito interessante e util. Ao interesse, que se liga 
elucidao de mais uma consequencia d'aquelle grande facto historico
reune-se uma verdadeira utilidade scientifica, porque as sciencias
naturaes no vivem s do presente, no se desenvolvem unicamente pelas
recentes observaes, e pelas descripes de novas especies, mas vivem
tambem do passado, e adquirem vigor e auctoridade, quando os periodos do
seu aperfeioamento se prendem s successivas phases da evoluo do
espirito humano.

Considerado este estudo de um modo geral, daria logar a um trabalho em
extremo difficil e longo, pois s teria valor quando apoiado em provas,
que demandam investigaes. , porm, possivel reunir pouco a pouco
materiaes para esse trabalho de maior vulto, em noticias especiaes sobre
plantas, regies, ou pocas particulares. Eis o que tentei n'esta
memoria em relao a uma planta, que teve uma poca de celebridade.

Refiro-me ao _Amomum Granum paradisi_, cujas sementes foram conhecidas
dos nossos navegadores sob o nome da _malagueta_. Esta substancia tem
hoje pouca importancia, e quasi anda esquecido o seu nome e applicado
vulgarmente aos fructos de outra planta, que, com a malagueta da Africa,
no tem relaes nem semelhana. No succedeu porm sempre assim, e,
como ao diante veremos, foi droga muito procurada e apreciada. Das
especiarias, que na edade mdia gozavam de nomeada, foi a _malagueta_ a
primeira que os navegadores portugueses encontraram logo no comeo dos
seus descobrimentos, e a primeira de cujo trafico se senhorearam
desviando-o dos caminhos at ento seguidos, e tanta importancia
adquiriu nas suas mos, que uma parte do litoral africano veiu a receber
o nome de Costa da Malagueta. Primeira, na data do descobrimento, entre
as especiarias que enriqueceram o nosso commercio, pareceu-me que a
malagueta devia ser o assumpto d'esta primeira memoria.




I

Do conhecimento que houve da malagueta antes e durante as viagens dos
portuguezes


 muitas vezes difficil, e no poucas impossivel, averiguar a que
plantas se referem os auctores antigos, encontrando-se em suas
descripes, quasi sempre vagas, muitas causas de duvida, mrmente
quando tratam de drogas vindas de regies afastadas, e de que tinham
imperfeito conhecimento. Theophrasto, e mais tarde Dioscorides e Plinio,
nomeiam diversas drogas aromaticas e pungentes, e tiveram noticia, entre
outras, da pimenta e do cardamomo.  certo, que algumas inexactides na
relao dada d'estas plantas, particularmente por Plinio, nos levam a
crer que confundissem sob a mesma designao productos de diversas
origens vegetaes; no ha porm motivo para suppor que entre esses
productos figurasse a _malagueta_, attendendo sobretudo  obscuridade,
que ainda no tempo de Plinio envolvia as terras d'onde  natural[1].

Encontramos nos livros de medicina e materia medica de alguns
escriptores arabes, como por exemplo nos de Serapio e de Avicenna,
mencionadas diversas drogas africanas. Na poca, em que estes celebrados
medicos composeram as suas obras, isto  do IX e X seculo em diante, j
os productos do Sudan comeavam a ser conhecidos no Egypto, e na Africa
septentrional pelas viagens, que faziam as kafilas de mercadores atravs
do Sahar, e parece provavel, que a _malagueta_ fosse um d'esses
productos. As referencias muito succintas, que se encontra em seus
livros, deixam-nos porm, na maior parte dos casos, em muita incerteza e
no temos fundamento para affirmar que a conhecessem e descrevessem,
antes temos razo para suppor, ou pela descripo das drogas, ou pela
indicao da sua procedencia, que se referiam a outras substancias
vegetaes[2].

A primeira meno da droga pelo nome ainda hoje usado, de que tenho
noticia,  do comeo do XIII seculo, e encontra-se casualmente na
descripo de uma festa celebrada em Treviso no anno de 1214. Figurou
n'esta especie de justa, ou torneio uma fortaleza ricamente ornada, cuja
defeza estava entregue a doze das mais illustres e mais formosas
senhoras, accompanhadas de suas donzellas, e que devia ser assaltada
pelos moos cavalleiros, armados de flores, aguas aromaticas e custosas
especiarias; infelizmente o fingido assalto transformou-se em seria
peleja, porque os cavalleiros paduanos e venezianos, pressurosos, como 
bem de crer, de correrem ao combate, se desavieram entre si, ficando
alguns mal feridos na contenda, e rotos os estandartes de suas cidades.
Entre as especiarias enumeradas na relao d'esta festa figura a
_melegeta_[3]. Depois d'esta primeira meno encontramos numerosas
indicaes de quanto aquella substancia foi conhecida e usada durante a
edade mdia.

No mesmo seculo XIII, Nicolau Myrepso, medico do imperador Joo III, na
crte de Nicaea, receitava a +meuegetai+[4], e o seu comtemporaneo Simo
de Genova, estabelecido em Roma, falla da _melegete_ ou _melegette_[5].
Com o nome de _grana paradisi_, pelo qual tambem era conhecida, vem
mencionada entre as especiarias vendidas em Lyo no anno de 1245;
egualmente em uma pauta ou tarifa de direitos cobrados em Dordrecht na
Hollanda, em 1358; e ainda entre os condimentos usados por Joo II rei
de Frana, durante o seu captiveiro em Inglaterra[6]. Sabemos tambem
pelo curioso livro de Francesco Balducci Pegolotti, escripto pelo anno
de 1340, que era importada em algumas cidades do sul da Frana, como
Nimes e Montpellier[7].

Era esta droga apreciada como medicamento e como condimento, e junta ao
gengivre e  canella empregada na preparao do vinho adubado, chamado
_hippocras_, muito em uso na edade mdia[8].

As caravanas arabes, ou berbres traziam estas e outras mercadorias do
Sudan, atravs do grande deserto do Sahar at aos portos do
mediterraneo. D'este commercio e do nome de _Grana paradisi_, o qual
proveiu de ser preciosa a especiaria, e misteriosa a sua origem, nos d
noticia uma importante passagem de Joo de Barros[9]. V-se pois, que o
nome de _malagueta_ foi bem conhecido e usado na Europa desde o comeo
do seculo XIII, e que n'este e seguintes, at ao meiado do XV, o
transporte d'esta substancia era exclusivamente feito pelas kafilas ou
caravanas dos mercadores africanos.

As eruditas e clarissimas demonstraes do visconde de Santarem[10]
pozeram to fra de duvida, o caracter fabuloso das viagens normandas do
XIV seculo, e do supposto commercio ou trato de mercadorias, feito entre
Dieppe e Roo, e a costa de Africa, que bem podemos passar em silencio o
que Villaud e o sr. Margry nos dizem a tal respeito.

Os nossos navegadores tiveram conhecimento da _malagueta_ ainda em tempo
do infante D. Henrique, como se deduz da j citada passagem de Joo de
Barros. Quando falleceu o infante, ainda no tinhamos chegado  parte da
costa, que mais especialmente recebeu depois o nome d'aquella
especiaria, e corre do cabo Mesurado ao cabo das Palmas; mas tinhamos
conhecimento dos terrenos banhados pelo rio Gambia, rio Grande e rio de
Geba, aonde egualmente se encontra. Das relaes de viagem, que deixou o
veneziano Alvise Cadamosto, tanto das duas a que elle proprio foi, por
mandado do infante, como da que emprehendeu Pedro de Cintra, o qual
chegou ao arvoredo de Santa Maria, alm do cabo Mesurado e j na costa
da Malagueta, no consta que se encontrasse a droga nas terras d'onde 
natural. Falla  verdade da _malagueta_, mas como de mercadoria, que as
caravanas de passagem em Hoden, ou Guaden traziam de Tombuto e outras
regies habitadas pelos negros[12]. Conhecia pois Cadamosto aquella
especiaria, e  singular que a no encontrasse ou no mencionasse nas
noticias detalhadas que d das terras do Gambia, e do Casamana, tanto
mais que o genovez Antonio da Nolle, ou Antonio Uso di Mare, seu
companheiro de viagem, fallando do rio Gamba, diz que ahi entrou porque
_in ipsa regione aurum et meregeta colligitur_[13]. Na narrao da
viagem de Diogo Gomes, levada a cabo ainda em tempo do infante pelos
annos de 1456 ou 1457, encontramos uma interessante meno. Estando
detidas as tres caravellas de seu commando pouco alm da foz do rio
Grande (o actual rio de Geba), pelas correntes fortissimas, que lhes
embargavam o passo, vieram de terra os naturaes, trazendo pannos de
algodo, marfim e _malagueta_ em gro e tambem nos fructos em que nasce,
de que elle (Diogo Gomes) teve grande contentamento[14].

 para notar, que os nossos escriptores no fallam da malagueta, como de
coisa nova e ento descoberta, mas sim como de especiaria bem conhecida,
e de feito sabemos o era, a qual, por ser preciosa, os navegadores
folgavam de encontrar.  um sentimento analogo, ao que, alguns annos
depois, deviam experimentar chegando s terras da pimenta e do cravo.

Encontramos a prova da importancia, que desde logo teve a _malagueta_ em
um valioso documento do XV seculo, o celebre globo de Martinho Behaim. 
bem sabido, que este notavel cosmographo, discipulo do mais afamado
astronomo dos seus tempos, Regiomontanus, se estabeleceu em Portugal,
para onde fra attraido, como outros distinctos sabios, pela fama, que
ao longe corria da revoluo feita nos conhecimentos geographicos, e na
arte de navegar pelos descobrimentos dos portuguezes. Assistiu muitos
annos em Lisboa, e na ilha do Fayal, d'onde era natural sua mulher,
fazendo apenas algumas curtas viagens  Allemanha, sua patria, e vindo a
fallecer em Lisboa no anno de 1506. N'esta cidade se encontrou de 1480 a
1484 com Cristovo Colombo, o qual j andava empenhado nos seus
projectos de viagem ao occidente, e alguns auctores pretenderam, ainda
que com pouco fundamento, attribuir-lhe a gloria dos descobrimentos de
Colombo, e tambem dos de Magalhes, dizendo que se haviam guiado por
seus avisos e conselhos, ou por alguns mappas seus, em que se achava
indicada a existencia do continente americano e mesmo a sua terminao
austral. No anno de 1484 acompanhou Martinho Behaim a Diogo Cam, em uma
viagem ao Congo, e de volta  Europa, ajudado pelo que elle proprio
observara, e pelas informaes colhidas entre os portuguezes, construiu
o globo que ainda se conserva em Nuremberg[15]. Nos rotulos ahi
gravados, alm de outras indicaes, que no vem para o nosso assumpto,
l-se o seguinte: Chegmos ao pays que chamo reino de Gambia aonde
cresce a malagueta, afastado de Portugal oitocentas lguas, passmos
depois ao pays do rei de Furfur que est a mil e duzentas lguas, aonde
cresce a pimenta chamada de Portugal[16]. Por aqui se v que estas
drogas no s eram bem conhecidas, como tidas pelos mais valiosos
productos vegetaes d'aquellas regies, e por isso mencionadas nos curtos
rotulos aonde se descreviam as principaes feies das terras figuradas
no globo.

Dos fins do XV seculo, ou principios do seguinte temos uma curiosa e
detalhada noticia da _malagueta_ e do seu commercio, em um livro que
ainda se conserva inedito, intitulado _Esmeraldo de situ orbis_,
escripto por Duarte Pacheco, um dos capites portuguezes mais conhecidos
por seu denodo e extremado valor. Dos seus heroicos feitos na India
fazem meno Joo de Barros, Castanheda e Cames. Voltando da India
governou o castello da Mina, e cando depois, por intrigas que lhe
moveram, no desagrado d'el-rei, foi preso e terminou a vida pobre e
abandonado. Da ingratido d'el-rei D. Manuel o vingaram bem algumas
admiraveis oitavas de Cames[17]. O _Esmeraldo_ foi terminado, ao que
parece, no anno de 1503, isto  logo que Duarte Pacheco voltou da India,
para onde fra em 1503 na armada de Affonso de Albuquerque, e aonde
ainda permanecia em 1504. Attendendo ao curto periodo decorrido entre o
regresso do oriente e o offerecimento do livro a el-rei D. Manuel, 
natural suppor que estivesse j composto antes da sua partida, e que as
informaes minuciosas sobre a costa de Africa, que ali se encontram,
fossem colligidas nas viagens de que Duarte Pacheco falla, feitas nos
fins do seculo XV, ainda em tempo de D. Joo II, de cuja casa era
cavalleiro[18].

Terei de examinar mais detidamente este livro nas paginas seguintes,
basta dizer por agora, que o auctor conhecia mui bem a _malagueta_ e as
suas diversas designaes, pois na descripo da costa de Africa, diz
fallando da matta de Santa Maria: e d'aqui se comessa o resguate da
malagueta que em latim se chama grany paradisy (_sic_).

Ainda devemos citar uma passagem da historia ou relao da viagem de um
piloto portuguez  ilha de S. Thom. No era homem vulgar este piloto,
antes parece ter sido muito lido e erudito. Estando em Veneza travou
amisade com o bem conhecido Jeronymo Fracastor, e com o conde Romualdo
de la Torre, e occupou-se em estudar e interpretar o periplo de Hannon.
O conhecimento, que j ento tinha da costa da Africa occidental aonde
fra varias vezes, habilitava-o a lanar alguma luz na obscura relao,
que nos ficou, da to discutida e celebrada viagem dos carthaginezes. E
certo que Ramusio se serviu muito, na sua interpretao do periplo, das
observaes e esclarecimentos fornecidos pelo portuguez[19]. De volta a
Villa do Conde, d'onde era natural, escreveu o anonymo piloto a relao
de uma das suas viagens  ilha de S. Thom, relao que enviou ao Conde
de la Torre, e que, vertida em italiano, foi publicada por J. B.
Ramusio. Deprehende-se das datas citadas ter a viagem tido logar pelos
annos de 1551 ou 1552.

No capitulo VI[20] tratando da Costa de Guin e Benim diz o seguinte:
Nasce n'esta costa a especiaria chamada malagueta, muito semelhante ao
milho da Italia, porm de um gosto forte como a pimenta; produz-se alli
tambem uma pimenta fortissima, mais do dobro do que he a de Calicut a
qual ns os Portuguezes, porque ella tem um pezinho que conserva depois
de secca chamamos pimenta de cauda[21]; he muito semelhante s cubebas
em a sua figura, porm para o paladar  to forte, que uma ona d'ella
faz o mesmo effeito que faria meia libra da ordinaria; e ainda que seja
prohibido debaixo de gravissimas penas exportal-a da dita costa,
tiro-na comtudo s escondidas vendendo-a em Inglaterra por um preo
dobrado d'aquelle porque venderio a pimenta vulgar. Procede esta
prohibio, de que desconfiando ElRei N. S.r que esta planta no fizesse
empatar e abaratar a grande quantidade de pimenta que vem cada anno do
Calicut determinou que de modo algum se podesse conduzir para fra[22].
Ha tambem uns arbustos que produzem vagens longas como sa as dos
feijes, com algumas sementes dentro, as quaes no tem sabor algum, mas
as vagens mastigadas tem um gosto delicado de gengibre, e os negros lhe
chama _Unias_ e lhes serve de tempero, junto com a dita pimenta, quando
comem peixe de que sa sobremaneira avidos.

Citei integralmente este importante trexo porque nos d clara e completa
a distinco entre tres substancias vegetaes por vezes confundidas. De
feito a descripo corresponde bem ao _Amomum Granum paradisi_ Afzelius,
ao _Piper Clusii_ Cas. DC. e  _Xylopia thiopica_ Richard, plantas de
todo o ponto diversas e de afastadas familias, porm semelhantes nas
qualidades aromaticas e ardentes de seus fructos ou sementes, e que por
isso se substituiram mutuamente ou confundiram no commercio.

Por estas citaes se v, que os nossos navegadores e escriptores
conheceram bem a droga produzida pelos _Amoma_ da Africa occidental, e
que a designaram geralmente com o nome de _malagueta_, no lhes sendo
tambem estranho o nome de _gros do parayso_.




II

Da origem da palavra malagueta


Esta designao foi, como vimos, muito usada nos XIII, XIV e XV seculos,
e, quanto hoje podemos julgar, applicada sempre, ou quasi sempre, s
sementes dos _Amoma_ da Africa occidental. Rarissimas vezes encontramos
este nome designando drogas da Asia, como por exemplo algum dos
cardamomos da India, e n'estes casos por evidente equivocao. Assim
Lagana, nos seus commentarios a Dioscorides, pertende identificar um dos
cardamomos do auctor grego com a malagueta, quando  quasi certo que tal
droga no conhecia[23]. Assim tambem Fr. Odorico de Pordenone, que
visitou o oriente pelos annos de 1320 a 1328, diz, que na ilha de Java
crescem diversas especiarias e entre estas as _melegetae_. A substancia
designada assim pelo missionario Franciscano era sem duvida um
cardamomo[24]. Estas applicaes erradas do nome explicam-se facilmente
pela semelhana das drogas, e por modo algum significam, que estas se
confundissem geralmente, antes temos provas de que bem se
distinguiam[25]. Foi s muito mais tarde, que este nome comeou a ser
vagamente dado a outras drogas e mui particularmente, como adiante
veremos, aos fructos de uma Solanacea.

Examinemos agora qual a origem provavel da palavra _malagueta_, ou
talvez melhor _melegeta_ primeira frma com que a encontramos escripta.
Um dos mais eruditos homens de sciencia dos nossos tempos, Alexandre de
Humboldt, quiz filiar esta palavra nos vocabulos asiaticos, que designam
a pimenta. De feito tem esta ultima especiaria em Sumatra o nome de
_molaga_, e na India o de _mellaghoo_, e pela tendencia natural a
applicar o mesmo nome a substancias analogas, e que o commercio
confunde, suppoz Humboldt que o nome da pimenta, um pouco alterado, e
tomando a frma _malagueta_, se viesse a dar  droga de Africa[26]. No
julgo por modo algum acceitavel esta etymologia. Para que na Europa se
dsse  semente do _Amomum_ um nome derivado, por analogia, do da
pimenta, era necessario que esse nome se tivesse primeiro dado aos
fructos do verdadeiro _Piper_. Ora no temos noticia de que a pimenta
fosse conhecida nas linguas da Europa por palavra semelhante a _molaga_
ou _mellaghoo_, ou que de algum modo se possa filiar nas frmas
sanskritas _mallaja_ ou _maricha_. O vocabulo grego +peperi+, assim como o
latino _piper_, d'onde vem quasi todas as designaes usadas na
Europa[27], prendem-se sem a menor duvida ao sanskrito _pippali_ pela
mudana do _l_ em _r_, frequente nas linguas do ramo iraniano, pelas
quaes nos foi transmittido. No  pois facil admittir que se dsse a uma
droga, por ser semelhante  pimenta, um nome que a pimenta nunca teve,
nem se comprehende que na Europa se applicasse a uma substancia da
Africa um nome asiatico pouco ou nada conhecido.

O sabio academico visconde de Santarem prope em uma das suas obras[28]
outra etymologia. Recordando que Cosmas Indicopleustes falla, na sua
_Topographia christiana_, do paiz de _Mala_ na Asia, e accrescenta _ubi
piper gignitur_, suppe que malagueta seja _malagignitur_ corrompido,
por isso que os primeiros navegadores, chegando  costa da Malagueta, e
vendo tanta abundancia de especiaria se podiam julgar no paiz de Mala.
Na verdade, parece-me demasiado forada e difficil de admittir esta
derivao.

Sustentaram alguns auctores a origem europa; entre outros Villaud de
Bellefond, seguido depois com pouco criterio por Corneille no seu
Diccionario Geographico, disse que a palavra era franceza, e quiz d'ahi
tirar, no sei bem porque raciocinio, uma prova de que os francezes
haviam descoberto as terras aonde a planta cresce. A origem franceza 
insustentavel, e no tem um unico argumento em seu favor. Devemos
todavia notar, que o visconde de Santarem, refutando esta opinio de
Villaud, incorreu por sua parte em alguns erros e seguiu um systema
contrario  verdade dos factos. No texto da sua memoria a pag. 39 e nota
7.[29], aquelle erudito escriptor pretende provar, que a palavra
_malagueta_ era usada pelos naturaes da costa d'Africa, datando dos
nossos descobrimentos a sua adopo para designar a droga, antes mais
conhecida pelo nome de sementes, ou gros do paraizo. Os factos
apontados nas citadas passagens pouco ou nada provam. Se Antonio da
Nolle diz que na regio aonde foi havia _ouro e malagueta_, no se segue
que o nome fosse usado pelos negros, mas sim que elle o conhecia, o que
era natural pois havia traficado no Mediterraneo. Se Brown, na relao
da sua viagem, affirma que os negros chamavam _malagueta_ a uma especie
de pimenta, isto s significa que os negros da costa j n'aquelle tempo
(1617) haviam adoptado o nome empregado pelos portuguezes, com os quaes
estavam em contacto quasi diario. Demais todos estes argumentos caem
perante os documentos citados nas paginas precedentes, que escaparam s
investigaes do douto academico[30], e provam ser conhecido o nome de
_melegeta_ desde o comeo do seculo XIII, isto , mais de dois seculos
antes das nossas viagens, e muitos annos antes das datas marcadas aos
suppostos descobrimentos dos genovezes, dos catales e dos normandos. Se
pois a adopo da palavra _malagueta_ se no pde ligar a viagem dos
francezes  Africa, no  por s ter sido conhecida depois, mas
exactamente pela razo opposta por ser vulgarissima muito antes.

Deparam-nos as obras de Matthioli, uma etymologia que, com quanto
apresentada de passagem e como opinio pessoal,  muito digna de
atteno e exame. Vem a ser a que deriva a palavra _malagueta_ da
semelhana da semente com os gros de milho da India, aos quaes em
algumas partes da Italia se dava o nome de _melga_[31]. Effectivamente,
o milho da India, o _Holcus sorghum_ de Linneo, foi denominado _melga_,
_meliga_ ou _mlica_, e encontra-se designado com este nome em uma data
anterior  primeira meno, que conheo, do nome de _malagueta_. Em um
instrumento publico do XIII seculo, passado na villa d'Incisa, se diz,
que dois cavalleiros cruzados, companheiros de armas de Bonifacio,
marquez de Monteferrato, de volta do cerco de Constantinopla, deram 
dita villa, alm de uma cruz de prata encerrando um fragmento do Santo
Lenho, uma poro de sementes provenientes da provincia de Natolia na
Asia e chamadas _meliga_, offerta que foi tida em grande estima e
considerao[32]. Quizeram alguns, que estas sementes fossem o milho, 
porm mais provavel fosse uma especie de sorgo ento nova, ou pouco
vulgar[33]. Do theor da carta passada em Incisa no anno de 1204 parece
resultar que o nome de _meliga_ era at ento desconhecido.  possivel,
com quanto pouco provavel, que dez annos depois no de 1214 se tivesse
j, por analogia e semelhana de frma, derivado d'aquelle nome o de
_melgueta_.

Resta examinar a origem africana, a qual se pde encontrar nos numerosos
e variados dialectos usados pelas populaes negras da regio aonde a
planta se cria, ou ainda nas linguas dos povos que com ellas
negoceiavam. Dois povos de raa diversa se empregaram no activo
commercio feito por um lado com os europeus, e por outro com as
populaes de raa negra; commercio de que os nossos escriptores
tiveram, como vimos, noticia, e de que Leo Africano d relao com a
clareza e intimo conhecimento de quem n'elle tomou parte. Foram esses
povos os arabes e os berberes: estes, os numidas ou libyanos dos
antigos, fallam uma lingua bem distincta do arabe, e que nem mesmo se
pde filiar no grupo semitico, mas sim em um grupo um pouco vago, de que
o coptico parece ser o typo, para o qual se propoz o nome de
chamitico[34]. Dominados pelos semitas e em contacto por duas vezes
com linguas semiticas, isto , com a lingua punica dos colonos
carthaginezes, e seculos depois com a arabica, aceitando o dominio dos
arabes e recebendo mesmo d'estes a religio mahometana, alguns berberes
conservaram no entanto lingua e costumes proprios. Ainda mais; os povos
berberes de raa pura, como os Tuareg, mais entranhados no deserto, e
mais afastados do elemento arabe, que to profundamente tem penetrado
todo o norte da Africa, no s fallam uma lingua distincta, mas
conservam o uso de um alphabeto especial, semelhante ao das inscripes
libycas[35]. O mais antigo historiador dos descobrimentos portuguezes,
Gomes Eannes de Azurara, teve conhecimento dos berberes, que chamou
azanegues e barbaros, e da distinco entre a linguagem mourisca e a
azaneguya do Zaara; e ainda mais, relatando a viagem do heroico
escudeiro Joo Fernandes, d conta de usarem de uma lettra com que
escrevem de outra guisa que a dos mouros[36], facto curioso, ignorado
ou posto em duvida durante muito tempo, e demonstrado pelas modernas
investigaes scientificas.

 pois no arabe, no berbr, ou nas linguas do Sudan e da costa
occidental que se deve procurar a origem da palavra, se porventura 
africana.

Devemos no entanto notar que os nomes arabes, hoje mais usados, no tem
relao ou semelhana com a palavra _malagueta_. So estes nomes _teen
el felfel_ e _tamar el felfel_, o que vale o mesmo que _pimenta figo_ e
_pimenta tamara_, derivados por um lado da ardencia das sementes, e por
outro de uma vaga semelhana na frma dos fructos, quando mais
desenvolvidos, com os figos, quando menores, com as tamaras.

Vem expressa em varias obras, sobretudo francezas, a opinio de que o
nome da droga se deriva do nome de uma villa ou logar de Africa, chamado
_Melega_, d'onde era trazida para a Europa. Da existencia de tal villa
no pde achar noticia, e creio, que alguns desses auctores se
equivocaram com a costa da Malagueta, e que os outros, como tantas vezes
succede, repetiram a assero sem se darem ao trabalho de procurar os
seus fundamentos[37].

Nos dialectos dos negros os nomes da droga so variadissimos o pela
maior parte absolutamente diversos e afastados no som e na frma da
palavra _malagueta_[38]. Diz-nos porm o sr. Daniell, que entre os
negros Krus habitantes da costa que vae do cabo Mesurado ao das Palmas,
o nome vulgar  _Guetta_, ao qual frequentes vezes se juntam as prefixas
_mane_ ou _mal_, e tem por certo ser esta a origem da palavra. 
possivel, mas no to seguro, nem to fra de discusso como parece ao
dr. Daniell, pois se pde bem admittir que o nome usado pelos Krus seja
a corrupo do vocabulo empregado pelos portuguezes e outros europeus, o
que  tanto mais provavel quanto os Krus no so uma populao do
interior, mas sim um povo da costa, muito dado  navegao, e como tal
um dos que tem sempre tido mais contacto com os estrangeiros.

Em todo o caso, se a palavra pertence ao dialecto dos negros foi-nos
transmitida pelos povos do norte da Africa, unicos que at s viagens
portuguezas tiveram contacto com aquellas regies. Devemos pois admittir
que espalhando-se o seu uso pelo interior da regio de Mandinga, se
tornasse vulgar em Timbuktu e outros grandes mercados do Sudan. Os
arabes e os berberes, que a esses mercados concorriam trouxeram a droga,
e com a droga o nome, pelo caminho do Dar-Fur ao alto Nilo, e d'ahi aos
portos do Egypto, ou pela via mais seguida do Fezzan aos portos de
Tripoli. Mercadores de varias naes, e na poca a que nos referimos,
principalmente os venezianos, navegavam para esses portos, e desde o
comeo do XIII seculo, se no antes, introduziram a droga na Europa e
usaram o nome _malagueta_ ou _melegeta_.

Em resumo a origem da palavra permanece obscura, e unicamente temos como
certo, que os italianos foram os primeiros, entre os povos da Europa, a
empregal-a, quer a derivassem da semelhana da droga com o sorgo,
chamado _melega_, quer usassem, o que  mais provavel, de uma
denominao vulgar eutre os africanos.




III

Das plantas que produzem a malagueta, e da sua distribuio geographica


Como mais de uma vez tenho observado, existe uma tendencia geral a
applicar o mesmo nome a productos distinctos, mas semelhantes ou de
propriedades analogas, e que se confundem ou substituem mutuamente no
commercio. Por outro lado nas diversas regies e pocas se tem dado
nomes differentes  mesma substancia. D'aqui resulta uma certa confuso
de nomes vulgares, da qual pde provir obscuridade, e que exige algumas
palavras de explicao.

O nome de _pimenta_ tem designado productos vegetaes variados. Em
primeiro logar algumas especies do genero _Piper_[39], da familia das
Piperaceas, pela maior parte oriundas da Asia, algumas porm naturaes da
Africa, como por exemplo o _Piper Clusii_, chamado _pimenta de rabo_
pelos nossos antigos escriptores. Por analogia de propriedades deu-se
depois ao fructo de uma planta totalmente diversa, uma Myrtacea das
Indias occidentaes, o _Myrtus Pimenta_ de Linneo, ou _Pimenta
officinalis_ de Lindley, sendo singular que o nome portuguez do _Piper_
se viesse a adoptar na linguagem scientifica para uma planta to
afastada. O fructo de uma Anonacea, a _Xylopia thiopica_, foi
egualmente conhecido no commercio, pelos nomes de _pimenta de Guin_ ou
de _Ethiopia_, de _pimenta negra longa_[40], de _gros de zelim_ e de
_maniguette_[41], este ultimo por confuso com a verdadeira malagueta.

Pelos fins do XV seculo, ou principios do seguinte, introduziu-se na
Europa a cultura de diversas especies do genero _Capsicum_ da familia
das Solanaceas. Parece que todas estas especies so de origem
americana[42]. A primeira noticia que temos d'estas plantas,  dada pelo
medico Chanca, natural de Sevilha, e companheiro de Christovo Colombo
na sua segunda viagem, o qual as descreve sob o nome de _agi_ usado
pelos naturaes das Antilhas[43]. Trazido o _Capsicum_ para a Europa, ahi
se generalisou rapidamente a sua cultura. D. Nicolau Monardes, que
escreveu no muitos annos depois da conquista do novo mundo, diz que em
toda as hortas de Hespanha se cultivava[44]. Clusio d a mesma noticia
em relao a Hespanha e a Portugal, aonde, nos arredores de Lisboa,
observou differentes especies e variedades[45]. Pelas qualidades
pungentes e ardentissimas de seus fructos, receberam estas plantas o
nome de _pimenta_, sendo chamadas, no tempo em que Clusio visitou Lisboa
_pimenta do Brasil_, e depois _pimenta de Hespanha_ ou de _Cayenna_ e
tambem _pimento_, _pimento_ e _malagueta_.  o fructo pequeno, alongado
e muito ardente, da variedade quasi arbustiva, que geralmente se conhece
com o nome de malagueta. Como a cultura d'esta planta  hoje muito
espalhada no meio-dia da Europa, o tambem na Africa, e ao mesmo tempo a
antiga malagueta  rara no commercio e pouco usada, o nome transferiu-se
na linguagem vulgar para o fructo do _Capsicum_, sendo geralmente
ignorado, que durante seculos designou uma planta totalmente diversa.

Em quanto a essa planta, a que agora nos occupa, pertence  familia das
Zingiberaceas do grande grupo das Monocotyledoneas: familia constituida
por vegetaes das regies quentes do globo, nos quaes abundam principios
aromaticos, e cujas raizes, ou antes rhyzomas e sementes, fornecem
alguns productos muito conhecidos desde tempos antigos, como so os
cardamomos, a curcuma, a galanga e o gengivre. Os cardamomos, produzidos
pelo genero _Elletaria_ e por algumas especies do genero _Amomum_ da
Asia ou do oriente da Africa, foram conhecidos dos antigos, mas bastante
confundidos entre si. Dioscorides e Plinio, e ainda mais os seus
commentadores, como Ruellio, Valerio Cordo, Laguna, Matthioli e outros,
enredaram por tal frma a synonymia dos cardamomos[46], que os trabalhos
modernos, e em especial as pacientes investigaes do erudito Hanbury,
ainda no conseguiram dissipar toda a obscuridade e remover todas as
duvidas. Quando a semente do _Amomum_ da Africa occidental comeou a
apparecer no commercio, foi envolvida n'esta confuso, recebendo por
vezes os nomes de _cardamomum majus_, e _cardamomum piperatum_, com
quanto fosse geralmente chamada _melegeta_ ou _grana paradisi_. A
natureza e patria da planta, que a produzia, eram ento ignoradas e
mesmo quando depois as viagens dos portuguezes lanaram alguma luz sobre
estes pontos, a distinco das especies permaneceu por muito tempo, e
at aos nossos dias, em extremo duvidosa e incerta.

Foi Linneo o primeiro a descrever uma Zingiberacea sob o nome de _Amomum
Granum-paradisi_[47]: porm dando uma diagnose curtissima, como era seu
costume, que mal permitte discriminar a que planta se referia, e citando
a par da habitao exacta na Guin, a habitao em Madagascar e em
Ceylo, aonde no existe tal especie e sim outras distinctas, temos a
prova de que confundia a especie do occidente d'Africa, com alguma outra
da Africa oriental ou da Asia. Torna-se assim muito difficil saber o que
na realidade seja a planta de Linneo. Um botanico sueco, que no comeo
d'este seculo assistiu por algum tempo em Serra Lea, Afzlius,
descreveu depois uma especie sob o mesmo nome de _A. Granum
paradisi_[48]. Mais tarde Roscoe, em uma monographia das Scitamineas,
estabeleceu uma especie que julgou nova, mas parece ser uma simples
variedade da j descripta por Afzlius, da qual diz provirem as sementes
do commercio, e  qual deu o nome de _A. Melegueta_[49]. Algum tempo
depois sir J. Smith em trabalhos diversos, e particularmente em varios
artigos da Cyclopaedia de Rees, occupou-se do genero _Amomum_, creando
algumas especies novas. O dr. Hooker publicou finalmente differentes
noticias sobre estas plantas, e fez a reviso dos _Amoma_ da Africa
occidental[50]. Devemos ainda citar as observaes de Jonathan Pereira,
inseridas nas successivas edies dos seus elementos de Materia Medica,
assim como as do sr. Planchon nas ultimas edies da Historia das drogas
de Guibourt[51] e muito particularmente uma memoria importante do dr.
Daniell,  qual j repetidas vezes me referi, fructo de longas e
cuidadosas investigaes, feitas na costa de Africa[52].

De todos estes trabalhos resulta, que houve numerosos enganos e trocas
na descripo e identificao das diversas especies, devidos por um lado
 difficuldade de as distinguir, e por outro a imperfeita explorao da
regio que habitam. Ainda hoje no concordam absolutamente os diversos
auctores, Hanbury, o dr. Hooker e o dr. Daniell sobre a sua limitao, e
o valor de algumas frmas, que uns julgam especies e outros simples
variedades. No entra no plano d'este trabalho a descripo minuciosa
das especies, nem a discusso da sua synonymia muito complicada e das
divergencias em alguns pontos secundarios, que ainda podem existir entre
uns e outros botanicos, e se encontram expostas nas obras citadas.

Basta-nos dizer, seguindo principalmente a opinio do dr. Daniell, que
as sementes se podem distribuir em dois grupos: o primeiro da _malagueta
vra_, ao qual pertence quas toda a droga do commercio, tendo em subido
grau as qualidades aromaticas e pungentes que a tornam procurada: o
segundo da _malagueta dubia_, aproveitada pelos negros na falta da
primeira, e servindo mesmo para adulterar a droga trazida aos mercados,
pois possue algumas das suas qualidades, posto que em menor grau.

A _malagueta vra_ parece ser produzida por uma unica especie, o _Amomum
Granum paradisi_ Afz.[53], da qual se encontram tres variedades
distinctas.

_Var. a. majus_: de porte maior e fructos e sementes grandes, a mais
estimada. Encontra-se principalmente na costa da Malagueta e do golfo de
Guin, e particularmente nos logares baixos, humidos e ferteis.  a
frma que Roscoe considerou como especie distincta e descreveu com o
nome de _A. Melegueta_.

_Var. b. medium_: de porte e fructos menores. Habita os terrenos
montanhosos da Serra Lea e outros logares. Parece ser a que serviu de
typo  descripo de Afzelius.

_Var. c. minus_: propria s regies mais seccas e mais elevadas, de
porte, fructos e sementes muito reduzidos; uma verdadeira variedade
subalpina.

Em quanto  _malagueta dubia_  produzida por um certo numero de
especies bem distinctas, como so o _Amomum exscapum_ Sims., _A.
longiscapum_ Hooker fil., _A. latifolium_ Afzelius, _A. Danielli_[54]
Hooker fil., _A. palustre_ Afzelius, _A. Pereirianum_ Daniell.

A explorao botanica da Africa intertropical est demasiado imperfeita,
para que se possa fixar com rigor, ou mesmo com uma tal ou qual
segurana, a demarcao das areas habitadas pelas differentes especies
vegetaes. Os limites, que vamos indicar, devem pois tomar-se apenas como
uma grosseira aproximao, sujeita a muitas correces.

Pelo lado do norte a malagueta comea a encontrar-se desde o cabo Verde,
ou talvez mesmo desde o Senegal. Parece porm ser bastante rara na
regio proxima ao mar, que corre da foz d'este rio  do Gambia. A que
por ahi se vende  trazida do interior pelos mandingas, e provm do alto
Senegal, alto Gambia, e das terras de Bambar. Podemos pois fixar como
limite norte, aproximadamente, o parallelo de 15 latitude norte.

Caminhando para o sul encontra-se na Guin portugueza porm em pequena
quantidade.  mais frequente a partir do rio de Nuno Tristo, e muito
abundante desde a Serra Lea at ao cabo das Palmas. Predomina sempre
nos terrenos baixos, humidos e fundos aonde chega a invadir as culturas
sendo difficil de destruir. Do cabo das Palmas para este abunda em toda
a zona da costa da Mina, costa de Benin, e delta do Niger at ao rio dos
Camares, encontrando-se tambem na ilha de Ferno do P. Existe
egualmente no Gabo, e em geral em toda a costa que corre norte sul do
rio dos Camares at ao Zaire. Comea porm a ser mais rara, ou pelo
menos a no dar logar a to activo commercio. Estende-se a habitao da
planta alm do Zaire. Temos n'esta parte uma informao importante, dada
pelo dr. Welwitsch, o qual nas suas exploraes botanicas, no encontrou
a planta espontanea, mas foi informado de que existe nas florestas do
interior do Congo[55]. Comparando esta informao com o itinerario
seguido por Welwitsch, pde fixar-se como limite aproximado sul o
parallelo de 7 latitude sul. V-se pois que a planta se encontra
localisada em uma regio bastante vasta, que se estende ao norte e ao
sul do equador, dilatando-se mais para o norte[56].

O limite oriental  muito mais vago, seno absolutamente desconhecido.
As vastas regies do Sudan tem sido atravessadas por alguns, poucos,
exploradores europeus, mas no estudadas botanicamente. Sabemos apenas,
que aos mercados da costa vem malagueta das terras de Bambar e talvez
das de Massina no alto Niger, que por outro lado as caravanas ainda hoje
levam a Murzuk, no Fezzan, alguma malagueta do Sudan[57], mas ignoramos
a regio onde  produzida. Attendendo s condies bastante uniformes de
temperatura e humidade que reinam no Sudan,  natural suppor que alguns
_Amoma_ da costa occidental, se no todos, se estendam em uma vasta
habitao at  regio dos lagos, ou mesmo de costa a costa. Na
Abyssinia, no paiz dos Gallas, e mesmo na costa oriental existem
especies de _Amomum_, mas a sua identidade com as da costa occidental,
com quanto admittida por alguns auctores[58], no est completamente
demonstrada.  foroso confessar que o conhecimento d'estas plantas 
demasiado imperfeito, e a explorao d'estas regies demasiado
incompleta para que desde j se possam formular quaesquer concluses
seguras.




IV

Do commercio da malagueta, e da parte da costa a que se deu este nome


Na ultima metade do XV seculo, e no principio do seguinte, o commercio
da malagueta, como o de todos os outros productos da costa occidental da
Africa, foi exclusivamente feito pelos portuguezes. O caracter, que
distingue os descobrimentos dos nossos, e os separa de muitas tentativas
arrojadas, mas desconnexas, de outros navegadores,  a energia e a
persistencia com que, no s proseguem avanando para o desconhecido,
mas vo consolidando, por meio de novas e repetidas expedies, o seu
dominio nas longinquas praias recentemente visitadas. Inspiradas pelo
genio ardente do infante D. Henrique, as navegaes portuguezas algum
tanto affrouxam no tempo de D. Affonso V, occupado pelas dissenes
intestinas do reino, pelos cuidados das expedies  Africa
mediterranica, e pela lucta em que a defesa dos direitos da excellente
Senhora o havia envolvido; tomam porm novo impulso sob a mo energica e
inflexivel de D. Joo II, para chegarem no reinado de D. Manuel, a essa
poca de maravilhosa espanso, em que as naus portuguezas sulcavam todos
os mares. No se satisfazem os nossos em descobrir novas terras, mas
procuram firmar por toda a parte o dominio portuguez, levantam o
castello de Arguim, edificam a fortaleza de S. Jorge da Mina, e cobrem a
costa oriental da Africa e a costa do Malabar de fortes e feitorias.
Estabelecem-se assim relaes seguidas, e um activissimo commercio com a
Africa e com o Oriente, no qual as especiarias representavam, como 
geralmente sabido, o mais importante papel.

Hoje, que algumas especiarias tem cado em completo desuso e abandono, e
outras se encontram to vulgares e correntes no commercio,
surprehende-nos a singular estima, em que foram tidas nos tempos
antigos, durante toda a edade mdia, e ainda no primeiro periodo do
renascimento.  certo, porm, que as difficeis, e muitas vezes
interrompidas relaes com o extremo Oriente, e as longas e demoradas
viagens pela Persia, ou pelo Mar Vermelho[59], tornaram estes productos
vegetaes raros e custosos, e por isso mesmo procurados como objecto de
luxo excepcional. As duvidas sobre a sua patria, o mysterio que envolvia
a sua origem, e fazia considerar alguns como provenientes do parayso
terrestre[60], ainda mais contribuiram para que se encarecessem as suas
excellencias como medicamentos, e como adubos. Quantidades pequenas
d'estas substancias, e que hoje teriamos por insignificantes, se
offereciam como valiosos presentes a papas e imperadores, ou se
enumeravam cuidadosamente entre as riquezas accumuladas em seus
thesouros[61].

O desejo de chegar s terras aonde cresciam to ricos e estimados
productos, e de, pela communicao directa, arrancar das mos dos
venezianos o monopolio do trato commercial com o Oriente, foi sem duvida
uma das causas principaes, que incitaram portuguezes e hespanhoes nas
suas navegaes.

 impossivel desconhecer, que outros motivos mais elevados e
desinteressados actuaram no animo dos nossos antepassados. As vivas
crenas religiosas, e o empenho de dilatar a verdadeira f entre as
populaes pagans ou mahometanas, o intuito de alargar o dominio das
quinas, accrescentando novas glorias, a tantas que j as rodeavam, e
ainda o puro interesse scientifico de resolver alguns problemas
geographicos, influiram por certo nos portuguezes para os lanar em
empresas heroicas, nas quaes nunca regatearam o sangue, nem a vida.
Todavia, devemos confessar, que a estes motivos mais puros accresceram
depois a sede do lucro, a rivalidade com as opulentas cidades de Italia,
e a attraco irresistivel exercida pelas riquezas do Oriente, a terra
das pedras preciosas, do ouro e das especiarias.

As relaes com o estremo Oriente haviam-se tornado durante a dominao
dos tartaros, pelos XIII e XIV seculos mais seguidas e frequentes. A
viagem to conhecida de Marco Polo, e as perigrinaes de alguns frades
menores, como Fr. Joo de Plano Carpini, Guilherme Rubruk, mais
conhecido com o nome de Rubruquis, Fr. Joo de Monte Corvino, Fr.
Odorico de Pordenone, Fr. Joo de Marignolli e muitos outros, rasgaram
um pouco o vo, que envolvia as terras quasi fabulosas do Cathayo ou da
Ilha de Cipango, e avivaram o desejo e a cubia de penetrar n'aquellas
regies, pois antes encareciam que diminuiam a fama j antiga das suas
riquezas. Se algumas d'estas viagens foram menos conhecidas ou quasi
ignoradas[62], no succedeu o mesmo a todas. As copias e traduces da
relao escripta por Marco Polo multiplicaram-se desde logo, e  bem
sabido, que em Portugal se conheceram e estudaram na poca, que precede
o grande movimento dos nossos descobrimentos[63]. O mesmo se deu no XV
seculo com a viagem de Nicolo di Conti, escripta por Poggio[64], e
avidamente lida e estudada pelos mais notaveis geographos de ento, como
Fra Mauro e Toscanelli.

Os projectos para chegar a essas ricas regies do oriente, _a terra das
especiarias_ occupam por esta poca todos os espiritos. D. Affonso V
manda por um dos seus capelles, o conego Ferno Martins, consultar o
celebre Toscanelli sobre o mais curto caminho para aquella terra.
Christovo Colombo consulta egualmente Toscanelli sobre o seu grande
intento de chegar aonde nascem as _especiarias_ navegando para o
occidente; intento que no levou a cabo, que s devia realisar Fernando
de Magalhes alguns annos mais tarde, mas que o conduziu ao inesperado
descobrimento do novo mundo e illustrou para sempre o seu nome. D. Joo
II, no affrouxando nas expedies maritimas, manda pela via do
Mediterraneo Pero da Covilhan e Affonso de Paiva, estudar o caminho para
a terra das especiarias, e procurar o Preste Joo, esse singular e
mysterioso personagem, que tanto occupou as attenes do mundo christo
durante alguns seculos[65].

Dada esta preoccupao dos espiritos, este desejo de alcanar as terras
do oriente ricas em aromas e productos preciosos, e os esforos durante
muitos annos baldados para ahi penetrar dobrando a _terra incognita_ do
continente africano, facil  comprehender, com que alvoroo seria
acolhido o descobrimento, nas novas terras de Africa, de substancias
vegetaes aromaticas capazes de rivalisar com as produces da Asia.  o
que se torna bem patente pela sollicitude com que, no dizer de Joo de
Barros e de Garcia de Rezende, D. Joo II procurava fazer conhecida nos
mercados da Europa, a pimenta trazida por Joo Affonso de Aveiro da
costa de Benin[66].

Por mais importante se teve sem duvida o descobrimento da _malagueta_,
pois se tratava, no de uma substancia nova, e que podia ser recebida no
commercio com maior ou menor acceitao, mas de uma droga conhecida,
apreciada e unica talvez, entre as drogas africanas, que gosava j ento
de tanta nomeada como as especiarias do oriente.

Que esta droga ou especiaria fosse conhecida dos portuguezes antes de
descobrirem as terras d'onde  natural, parece-me fra de toda a duvida.
O contacto que tiveram com os italianos, a presena nas esquadras
portuguezas de genovezes e de Venezianos, versados na navegao e
commercio do Mediterraneo, levam-nos a crer que os nossos andassem bem
informados do valor e natureza dos principaes objectos de trafico com o
Oriente e com a Africa. O modo porque alguns dos primeiros navegadores,
como por exemplo Diogo Gomes, se referem quella substancia confirma
inteiramente esta opinio.

Que por outro lado a patria da _malagueta_ e a natureza da planta que a
produz fossem ento desconhecidas, parece-me facto egualmente provado. 
bem notorio, que as regies centraes da Africa no permaneceram
inexploradas, at aos descobrimentos dos portuguezes na costa
occidental, e que desde pocas remotas os viajantes e mercadores arabes
penetraram no Sudan. Pelas relaes que estes conservaram durante muito
tempo na peninsula, deviam os portuguezes e os hespanhoes, andar mais
bem informados das coisas de Africa, que outro qualquer povo da Europa:
sabemos mesmo, com quanto zelo e sollicitude o infante D. Henrique
procurava obter, por esta via, informaes das terras africanas[67]: no
entanto no temos motivo para suppor que essas informaes fossem muito
exactas e detalhadas, no que dizia respeito  origem e natureza das
produces vegetaes.

Algumas passagens das narraes dos nossos primeiros navegadores, vem
tambem em apoio d'esta opinio. Diz Diogo Gomes, enumerando os objectos
que os negros trouxeram de terra estando as suas caravellas em frente do
rio Grande e uma quarta de malagueta em gro, e nos fructos em que
nasce, de que fiquei muito satisfeito. Parece-me resultar claramente
d'esta phrase que conhecia bem a malagueta, sabia o seu valor, e folgava
de encontrar a terra ou regio aonde era produzida. Ainda mais,
referindo-se ao facto, que parece julgar importante, de trazerem a
semente incluida nos fructos, indica que estes lhe eram menos familiares
que a semente ou gro, o que  natural, pois se encontravam com menos
frequencia no commercio. Tinha por tanto a vista do fructo por um signal
de que a planta se encontrava em logares proximos, como de feito
succedia.

Foram pois os portuguezes, os primeiros europeos que observaram a
planta, e definiram bem a situao das terras aonde nasce; situao que
se havia conservado, durante a edade mdia, envolvida em grande
obscuridade e mysterio, dando origem ao nome de _grana paradisi_.
Lanou-se assim um primeiro raio de luz sobre um ponto importante de
geographia botanica.

Foram egualmente os portuguezes, os primeiros a darem a uma parte do
littoral africano o nome, que ainda conserva, de costa da Malagueta.
Vamos demonstrar pelo exame de alguns documentos importantes, que este
nome se applicava  mesma extenso de costa, hoje assim designada, e que
os limites pouco ou nada tem variado.

Como vimos, a primeira malagueta encontrou-se na regio do Gambia, e nas
terras da Guin portugueza, que foram descobertas em 1446 por Nuno
Tristam[68] na viagem em que pereceu, e visitadas no mesmo anno e nos
seguintes por Alvaro Fernandes[69], Diogo Gomes[70]. Alguns annos
depois, no de 1460[72], Pedro de Cintra avanou muito nos
descobrimentos, correndo toda a costa africana at  Serra Lea, a qual
j fra reconhecida por Alvaro Fernandes, mas ao que parece
imperfeitamente, e avanando para o meio dia at ao cabo Mesurado e ao
arvoredo de Santa Maria. Dos annos seguintes temos escassas noticias; 
certo, porm, que pouco ou nada se adiantou, e que mesmo a ultima parte
da viagem de Pedro de Cintra era mal conhecida, pois se encontra, no
contracto celebrado com Ferno Gomes no de 1469, marcada a Serra Lea
como o termo dos anteriores descobrimentos, feitos pelo mencionado Pedro
de Cintra e por Sueiro da Costa[73]. Em janeiro de 1471 descobriram Joo
de Santarem e Pedro de Escobar[74] o resgate do ouro, j no golfo de
Guin sendo, ao que parece, os primeiros que correram a costa depois
chamada da Malagueta. Podemos por tanto fixar o descobrimento d'aquella
costa entre o anno de 1460, em que as nossas caravellas passaram alm da
Serra Lea, e o de 1471, em que penetraram no golfo de Guin, dobrando o
cabo das Palmas.

O nome de Guin, applicado primeiro de um modo vago a todo o occidente
de Africa, veiu depois a dar-se mais especialmente  terra dos negros,
aos quaes os primeiros historiadores das nossas conquistas, como por
exemplo Azurara, chamam muitas vezes guinos. O rio Senegal determinava
rigorosamente o limite septentrional da Guin, pois que as differenas
de vegetao e de clima, e a passagem dos berbres ou mouros da margem
direita aos negros Jallofs da margem esquerda estabeleciam ahi uma
transio rapida, que no escapou  observao dos nossos[75]. Dava-se
por tanto o nome de costa de Guin,  que corria para o meio-dia do
Senegal, e s vezes o de costa de Anterote,  que ficava ao norte entre
o cabo Branco e a foz do dito rio. O limite meridional da Guin, no era
bem definido, e parece ter-se designado com aquelle nome toda a
Senegambia, assim como toda a regio, que hoje o conserva mais
especialmente e limita pelo norte o golfo de Guin.  certo, porm, que
as diversas partes da costa comearam desde logo a receber nomes
especiaes, derivados geralmente das principaes mercadorias que ahi
affluiam. Assim como parte da costa do golfo de Guin, que corre para
oriente do cabo das Palmas, se chamou costa do Resgate do ouro ou da
Mina, a que fica aquem d'aquelle cabo teve o nome da costa da Malagueta.

Encontra-se uma primeira meno d'este nome nos escriptos de Christovo
Colombo, o qual antes de emprehender a celebre viagem, em que descobriu
o novo mundo, tinha navegado varias vezes para Guin em companhia dos
portuguezes. Na relao da sua primeira expedio  America, diz por
incidente ter visto, tempo antes, algumas sereias na costa da
Malagueta[76]. Com quanto no sejam conhecidas, com rigor, as datas das
suas viagens a Africa, podera-se fixar com bastante aproximao. De
feito Colombo affirma, no seu tratado das zonas habitaveis, que esteve
no Castello da Mina do rei de Portugal[77]. Como a fortaleza de S. Jorge
da Mina foi mandada edificar no anno de 1481, e terminada no seguinte
de 1482, e como no de 1484[78], sau Colombo para Hespanha a offerecer
os seus servios aos reis de Castella, segue-se que uma das suas viagens
teve logar entre estas datas, e que as outras foram provavelmente
anteriores, pois decerto no voltou a Guin, depois de passar a
Hespanha. V-se, por tanto, que j n'essa poca os portuguezes, com quem
Colombo navegou, empregavam a designao de costa da Malagueta[79].

Vejamos agora as curiosas observaes, que nos depra o _Esmeraldo_ de
Duarte Pacheco, do qual j de passagem fiz meno, mas que  mister
examinar em detalhe, no s pela importancia das noticias que contm,
como pelo facto de se conservar inedito.

Em primeiro logar convm advertir, que o nome de _costa da Malagueta_ se
encontra ali mencionado repetidas vezes, como expresso vulgar e
corrente. Assim em uma taboada das latitudes de diversos logares, vem
(fol. 12 v.) a latitude do rio dos Cestos na costa da Malagueta. Mais
adiante (fol. 50) explicando a derrota, que os navios devem seguir, diz
assim: se algum navio estiver tanto avante como o cabo Ledo da Serra
Lyoa e ouver de ir pera a costa da Malagueta. E ainda em outra passagem
(fol. 53 v.) tratando do Cabo das Palmas, e da navegao, que convm
fazer para o dobrar na volta para Portugal, diz; Costumamos de fazer
caminho de Loes Sudoeste caminho destes reynos, por nos arradarmos da
costa da Malagueta.

Em quanto aos limites do littoral comprehendido sob aquella designao,
esto fixados com o maior rigor nas seguintes passagens. A (fl. 50)
encontra-se no _Esmeraldo_ o seguinte: Item do Cabo do Mesurado ha
matta de Santa Maria som 2 leguoas e esta matta he muito grande e de
muito grosso arvoredo e daqui se comessa o resguate da Malagueta, que em
latim se chama grany paradisy (sic) e dura este comercio 40 leguoas ao
longo d'esta costa. Segue depois enumerando os diversos pontos do
littoral[80], mencionando repetidas vezes a Malagueta entre os objectos
de commercio, e quando falla do Cabo das Palmas, diz: (fol. 53 v.) da
costa da Malagueta a qual faz fim no dito cabo das Palmas.

Das affirmaes d'estes dois escriptores contemporaneos, Christovo
Colombo e Duarte Pacheco Pereira, que conheceram muito bem, e
frequentaram a costa africana, se deduz, que a designao de costa da
Malagueta era usada nos fins do seculo XV e por tanto se devia ter
comeado a empregar logo aps o descobrimento. Torna-se pois bem claro,
que o commercio d'aquella droga, havia tomado grande importancia logo
nos primeiros annos, o que nos no pde surprehender, em vista da
nomeada que ento tinha nos mercados da Europa.  egualmente certo, que
este nome era ento exclusivamente usado entre os portuguezes e pelos
portugueses, ou estrangeiros, que em seus navios embarcavam, pois
n'estas primeiras pocas, os navegadores de outras naes nem
frequentavam, nem quasi conheciam o caminho d'aquellas regies. Quando
annos depois esses navegadores comearam a concorrer com os nossos,
adoptaram a designao portugueza, ou os seus equivalentes de _Cte des
grains_ e de _grain coast_. S muito recentemente se tem empregado o
nome de costa da Liberia, no se tendo, ainda assim, abandonado a
designao primitiva. No tocante aos limites no houve alterao, pois
em todo o tempo a costa da Malagueta, se considerou, como comeando no
cabo do Monte, ou no Mesurado e estendendo-se at ao das Palmas; isto ,
limitada pelo mesmo modo que na poca de Duarte Pacheco.

Seguindo o exame do _Esmeraldo_ encontramos outras importantes noticias.
A origem do nome do rio dos Cestos, vem ali explicada do modo o mais
claro na seguinte passagem (fol. 51 v.) Item do rio do Junco ao rio
dos Cestos som 12 leguoas, e este nome do rio dos Cestos lhe foi posto
porque os negros d'esta terra vem resguatar malagueta, a qual he muito
boa e arrazoada quantidade e esta trazem em huns Cestos, o que em toda a
outra costa honde h a dita malagueta nom costumam trazer[81].

Sobre o preo da droga, e sua variao nos d Duarte Pacheco preciosas
informaes. Fallando da Ilha da Palma, e do commercio de escravos, que
tres leguas adiante se podia fazer, diz assim: agura est este
comercio danado, porque quando se comprava um alqueire de malagueta por
uma manilha de latam, que teria em pezo meio arratel, e um escrvo por
duas bacias, assi como as dos barbeiros, e agura vai um alqueire de
malagueta cinco e seis manilhas e um escrvo quatro e cinco bacias.
D'onde se v, que o preo augmentra de um modo consideravel, e que os
negros tinham tirado partido da frequencia, com que as nossas caravellas
visitavam aquella costa.  para notar a circumstancia curiosa, de ter,
relativamente, crescido mais o preo da malagueta, que o dos escravos,
ou porque a primeira fosse mais procurada, ou (o que infelizmente  mais
provavel) porque o mercado andasse sempre abundantemente provido da
mercadoria humana pelas guerras e correrias continuas das populaes do
littoral e do interior.

Ainda merece ser citada uma observao feita por Pacheco quando,
descrevendo a costa situada na proximidade da Lagea, diz neste lugar ha
maior malagueta de toda esta costa: observao pela qual se v, que as
differentes dimenses da planta, e dos seus fructos e sementes, tinham
attrahido a atteno dos portugueses j nos fins do seculo XV. Estas
differenas so, como vimos, bastante sensiveis, sendo os fructos e
sementes de grandes dimenses na frma, que Roscoe, o dr. Hooker e
outros botanicos, admittiram como especie distincta e descreveram sob o
nome de _Amomum Melegueta_, e que o dr. Daniell tem por uma simples
variedade (var. a _majus_ da _malagueta vera_), e sendo mais pequenas na
especie _Amomum Granum paradisi_ de alguns auctores, a qual corresponde
s duas variedades (_b. medium_ e _c. minus_) do dr. Daniell[82]. Da
memoria d'este botanico consta, que a primeira frma  mais frequente na
parte mdia da area habitada pela planta, isto , na extremidade
meridional da costa da Malagueta, na costa do golfo de Guin at ao
delta do Niger e nas terras interiores do Sudan, em quanto que as frmas
menores abundam para o norte na costa da Serra Lea, e para o sul em
Ferno do P, costa do Gabo e terras do Congo. Confirma-se assim a
exactido do reparo de Duarte Pacheco, pois que a Lagea estava situada
na regio aonde ento, como ainda hoje, se devia encontrar a especie ou
variedade de sementes maiores.

Temos, por tanto provas numerosas e seguras, de que os portuguezes,
conheceram a _Malagueta_, souberam bem o seu valor, frequentaram as
terras d'onde  natural, e distinguiram mesmo as variedades, que os
negros offereciam  venda nas diversas localidades. Fica egualmente
provado, que os portuguezes, desviaram o commercio d'aquella especiaria
do caminho, moroso e difficil, at ento seguido pelo interior da
Africa, abrindo-lhe via mais rapida e segura pelo Atlantico. De feito,
se das terras sertanejas do Sudan continuaram a vir, como ainda hoje vem
algumas pequenas pores atravs do Sahar, toda a que se produzia na
regio occidental, passou a ser conduzida pelos nossos, os quaes se
senhorearam d'este commercio, como mais tarde do das drogas asiaticas.

Durante todo o XV seculo, e ainda no primeiro quartel do seguinte, se
conservou este monopolio nas mos dos portuguezes. Os reis de Portugal,
escudados nas bullas de Nicolau V, de Calixto III, de Xisto IV e de
outros papas, tendo os seus direitos garantidos por tratados celebrados
com diversos soberanos, entre os quaes avulta o de Tordesillas de 1493,
tratados que os declaravam e reconheciam por senhores exclusivos do
commercio e navegao de Guin, mantiveram com vigillante sollicitude os
seus privilegios. Algumas viagens de mercadores estrangeiros, que
tentaram traficar na costa de Africa, deram logar a reclamaes
diplomaticas promptamente attendidas[83] quando no foram reprimidas por
meios mais expeditos e violentos, sendo apresados ou mettidos a pique os
seus galees.

Correndo porm o XVI seculo, esta vigillancia veiu a afrouxar, comeando
os navios francezes e inglezes a frequentar a costa de Guin. As
conquistas no oriente, que no s traziam occupadas todas as foras da
nao, mas distraidos os animos para empresas, que ento se affiguravam
mais lucrativas e gloriosas, contribuiram sem duvida, para que se
descurasse a guarda das possesses africanas. A pimenta, a canella, o
cravo e as outras ricas especiarias da India e da China, lanavam no
esquecimento os mais conhecidos e menos valiosos productos africanos.
Continuaram,  certo, as restrices commerciaes, inspiradas pelo desejo
de aproveitar as drogas de Africa e ainda mais pelo receio de que estas
affrontassem no mercado os productos da Asia; mas essas restrices
foram sendo successivamente mantidas com menor energia e cuidado. As
nossas armadas conservavam-se o mais do tempo, occupadas nos mares da
India e da China, ou na guarda do estreito, fazendo apenas escalla pelos
portos de Guin aonde pouco se demoravam. Iam-se assim tornando mais
ousados os mercadores estrangeiros, e mais repetidas as suas viagens.
Abundam os documentos, que nos fazem assistir, quasi que dia a dia, a
esta lucta de Portugal com as naes maritimas rivaes; que nos mostram o
caminho de Guin, aberto pelos portuguezes e s d'elles conhecido
durante annos, devassado pouco a pouco pelos outros navegadores, at que
o monopolio de Portugal se torna insustentavel e a egualdade se
estabelece.

Os primeiros que navegaram para a costa da Malagueta foram os francezes:
no s negociando nos seus portos, com quebra dos direitos de Portugal,
mas atacando, como verdadeiros corsarios, alguns navios menos veleiros e
menos bem armados, que encontravam isolados. No  possivel fixar
exactamente a poca, em que as suas primeiras viagens tiveram logar, mas
deve ter sido no comeo do XVI seculo, pois que em 1531, j para ali se
dirigiam com tanta frequencia, que a crte de Lisboa se resentiu d'estas
violaes repetidas dos seus direitos, e entabolou longas negociaes
diplomaticas com a crte de Frana, para pr cobro s invases dos
mercadores e corsarios francezes. Tomaram parte n'essas negociaes,
pelo lado de Portugal, os embaixadores D. Antonio do Athayde e o dr.
Gaspar Vaz, e pelo lado de Frana, o Cardeal de Sans, Legado e
Chanarel de Frana, e os senhores de Memoransi, Gro-mestre e Marichal,
e de Biron Almirante de Frana: podendo deprehender-se da qualidade das
pessoas a importancia do negocio[84]. Chegaram afinal a um concerto,
sendo revogadas todas as cartas de marca e represarias, e publicando
pouco depois o rei de Frana uma proviso, na qual prohibia aos seus
vassallos contratar nas conquistas do rei de Portugal, sob pena de
confiscao de sua pessoa e bens[85]. Era urgente obter estas
providencias, pois s no citado anno de 1531 tinham saido dos portos de
Normandia, Picardia e Bretanha, no menos de sete navios com destino a
Guin. No entanto o dr. Gaspar Vaz, que andava empenhado n'estas
reclamaes, e d noticia da partida d'estes navios, parece acreditar
pouco na efficacia das prohibies, pois recommenda com muita instancia,
que os mettam no fundo, unico remedio seguro, na sua opinio, para que
taes viagens no continuassem, e o nosso commercio se no
devassasse[86]. De feito as previses do dr. Gaspar Vaz realisaram-se,
porque as viagens continuaram. Ramusio, dando conta da navegao de um
capito de Dieppe, que no anno de 1539 foi  Malagueta e muito alm,
dobrando o cabo de Boa Esperana e chegando a Sumatra, affirma que os
francezes corriam com frequencia a costa de Guin[87]. Fr. Luiz de
Sousa, relatando a partida de uma forte armada, commandada por Manuel de
Macedo, que no anno de 1540 passou  costa da Malagueta, diz que o seu
destino era fazer levantar os corsarios que a continuavam com teima e
fora[88]. Finalmente no anno de 1542, dizia o conde da Castanheira, em
uma especie de _memorandum_ sobre o estado da fazenda publica, o trato
da malagueta he devasso de vinte e oito e vinte e nove annos a esta
parte e aconselhava como remedio fazer-se uma fortaleza n'aquella
costa[89]. Por todas estas affirmaes se v bem claramente, que os
esforos de Portugal para fazer respeitar os seus direitos, j pelas
vias diplomaticas, j pela fora das armas, haviam sido baldados.

No tardaram os inglezes em seguir o mesmo caminho. Thomaz Windham em
1551, Joo Lok em 1554, Towrson por varias vezes nos annos seguintes, e
pouco depois Butter, Fenner e Baker correram a costa de Malagueta, e
negociaram nos seus portos[90].  de notar, como prova de quanto, ainda
ento, aquellas paragens eram pouco conhecidas dos outros povos da
Europa, que tanto os francezes como os inglezes procuravam o auxilio de
portuguezes, que os guiassem nas suas primeiras viagens. A bordo do
navio saido da Rochella no anno de 1531 ia como piloto o portuguez Joo
Affonso, e em companhia de Windham foram Antonio Annes Penteado[91], que
ento andava refugiado em Inglaterra, e outro portuguez chamado
Francisco.

Por esta poca ainda a _malagueta_ conservava a sua reputao e o seu
valor, sendo procurada como um dos principaes objectos de trafico da
costa de Guin. O curioso despacho do dr. Gaspar Vaz, antes citado, d
noticia de uma pequena poro d'esta especiaria, que os francezes tinham
trazido directamente da Africa: a Roo vieram 17 botas[92], e fra
informado de que em Flandres tinham vendido 5 ou 6, e por ventura mais
alguma nos portos de Inglaterra ou Escossia. Sobre estas vendas havia o
nosso embaixador dirigido uma reclamao ao almirante de Frana, da
qual, na data do seu despacho, ainda aguardava a soluo.  importante
este documento, porque prova, que se ento j vinha alguma malagueta 
Europa por mo dos francezes, era pequena a quantidade, e no era facto
vulgar[93], pois que esta venda insignificante chamava a atteno e
provocava os reparos do embaixador de Portugal.

Nas relaes das primeiras viagens dos inglezes veiu egualmente
mencionada a malagueta. Windham falla dos gros, ou sementes do paiz de
Sestros, como incluidos em um fructo quente, semelhante aos figos[94];
no diz porm o nome, que parece ignorar. Joo Lok, que trouxe, como
parte da sua carga, trinta e seis barricas d'aquella mercadoria, d uma
noticia bastante exacta dos fructos, e das sementes, chamadas pelos
medicos Grana Paradisi[95]. Towrson  o primeiro que menciona o nome de
_manegeta_, como sendo usado pelos negros[96], e dado s vezes  parte
da costa aonde aquelle commercio era mais activo.

Se por estes documentos se prova que os francezes e os inglezes, j no
meado do seculo XVI concorriam com os nossos no commercio da malagueta,
prova-se egualmente que o seu trato era ainda limitado, e no affrontava
sensivelmente o monopolio dos portuguezes. De feito as pequenas pores
da droga a que se referem, contrastam com as avultadas quantias, que os
navios de Portugal lanavam nos mercados da Europa. Por uma carta
d'el-rei D. Joo III, de 5 de fevereiro de 1533, se v que havia, na
casa da India, mil e quinhentos quintaes de malagueta para vender[97].
Annos depois, no de 1537, fazia-se, por intermedio do conde da
Castanheira, a venda de quatro centos quintaes a doze cruzados o
quintal[98]. So sufficientes estes numeros para demonstrar a
importancia que ainda conservava para Portugal aquelle commercio.

No entanto ia-nos escapando pouco a pouco das mos, pela marcha natural
dos acontecimentos, e mau grado os esforos da nossa diplomacia, um
monopolio, que na verdade era difficil de conservar, perante os
progressos realisados pelas outras naes maritimas da Europa. De feito
 de crer, que as prohibies emanadas dos governos, com os quaes
estavamos em relaes amigaveis, se no tornassem effectivas com grande
rigor, pois eram mais destinadas a dar satisfao apparente s nossas
reclamaes, que a tolher o desenvolvimento da navegao e commercio,
por certo agradavel a esses governos.

No vem para aqui a historia da decadencia do nosso poder maritimo.
Quando Portugal, conquistada de novo a independencia, fez um esforo
supremo para restabelecer o seu dominio sobre algumas colonias quasi
perdidas, e para recuperar outras que totalmente lhe haviam escapado,
nao pde voltar ao estado de antiga supremacia. No s tinha perdido o
exclusivo da navegao e commercio nos mares de Guin e do Oriente, j
antes mais nominal que real, no s estava em presena de uma
concorrencia absolutamente livre, mas achava-se em estado de evidente
inferioridade, relativamente a outras naes. No que toca  costa
occidental do continente africano, apenas conserva o dominio da Guin
portugueza e da vasta provincia de Angola. Nas regies mais proximas ao
equador, onde mais activamente se fazia o commercio da malagueta, s
ficou possuindo o insignificante forte ou feitoria de S. Joo Baptista
de Ajud. As outras possesses portuguezas passaram para as mos dos
hollandezes e dos inglezes, que tomaram desde ento a parte mais activa
no commercio d'aquellas regies.  certo, que alguns navios portuguezes
continuaram at a poca presente, a concorrer com os das outras naes
aos portos da costa da Malagueta e do golfo de Guin; mas este commercio
feito em pequena escala, e perdendo a feio exclusivamente portugueza
deixa de nos interessar n'este estudo.

Ao passo que o commercio da malagueta perde a sua importancia
relativamente a Portugal, perde-a egualmente de um modo absoluto. A
droga, outr'ora to conhecida, foi pouco a pouco caindo em desuso; j
porque as suas propriedades medicinaes ou aromaticas haviam sido
exageradas, e se foram reduzindo ao seu verdadeiro valor; j porque a
crescente facilidade de communicaes fez affluir aos centros de consumo
outras substancias vegetaes das diversas partes do globo, de eguaes ou
superiores qualidades. Entre os negros continuou, e continua ainda, a
ser usada como medicina e condimento estimulante. Ainda no seculo
passado e principio do corrente a predileco dos negros por aquelle
adubo dava alguma actividade ao commercio da malagueta, pois que se
vendia facilmente na America aonde estava accumulada uma grande
populao de escravos.  o que succedia, por exemplo, na provincia da
Bahia, principalmente abastecida de escravos pela regio de Benin e
circumvisinhas, habituados  comida feita com azeite de palma e adubada
com as substancias vegetaes aromaticas da sua terra natal. Hoje porm,
que o trafico da escravatura est mui limitado, este consumo deve ter
diminuido, se no cessado inteiramente. Entre os povos civilisados o
emprego da malagueta  modernamente pouco consideravel. No entanto dos
portos das costas da Malagueta, do Marfim e do Ouro, ainda se embarca
alguma para Inglaterra, Frana, Hollanda, Estados Unidos e outros
destinos.  empregada na preparao de medicamentos para os animaes,
raras vezes usada como condimento, servindo principalmente para dar um
gosto forte a alguns cordeaes[99].

Como se v tem decaido muito da sua antiga nomeada a celebrada droga da
edade mdia: to celebrada, que as suas suppostas excellencias e o
mysterio da sua origem lhe haviam conquistado o nome de semente do
parayso.




V

Concluses


 facil agora, resumindo o que levamos dito, definir em breves palavras,
qual foi a influencia das viagens portuguezas sobre o conhecimento
d'aquella notavel planta, e sobre o trafico commercial a que deu logar.

Vimos nas paginas precedentes, que a _malagueta_  a semente de uma
especie vegetal, o _Amomum Granum paradisi_, localisada em uma vasta
zona da Africa equatorial, que se estende das praias do Atlantico at a
um limite oriental ainda pouco definido. A densa populao de raa negra
d'aquella regio, conheceu sem duvida as suas propriedades, e empregou-a
desde pocas muito remotas. Ficou porm ignorada dos povos da Europa,
que s em um periodo retalivamente recente, tiveram noticia das terras,
hoje geralmente designadas com o nome de Sudan.

 subita e singular expanso da raa arabe, que se seguiu ao
estabelecimento da religio mahometana, se prendem os successos
historicos que abriram ao commercio europeu aquellas uberrimas terras.
As invases arabes na Africa septentrional, repellindo uma parte da
populao berbre, que se no quiz submetter ao dominio dos sectarios do
Islam, determinaram a sua migrao para o interior, lanando-a sobre a
terra dos negros, com os quaes j antes tinham communicaes, porm
menos seguidas e frequentes. No tardaram os arabes em trilhar o mesmo
caminho, internando-se no serto e pondo-se tambem em contacto com a
terra dos negros, o _Belad es-Sudan_. Estes dois povos, affeitos  vida
nmada, eram eminentemente proprios a precorrer, em longas e penosas
viagens, os desvios de areia movedia, ou de rocha escalvada e sfara do
Sahar. Estabeleceu-se assim o trafico das caravanas, travando relaes
commerciaes entre os portos do Mediterraneo, e as ferteis regies do
Sudan. A Alexandria, a Tripoli e aos portos do Gharb affluiram os
escravos, o ouro, o zibetto, a malagueta e outras mercadorias de Melli,
de Kukia, ou de Timbuktu. Aos navegadores italianos, entre os quaes
sobrelevaram os venezianos, que, durante seculos, tiveram em suas mos o
commercio do Mediterraneo, se deve sem duvida a introduco na Europa
d'essas mercadorias, e entre ellas da _malagueta_. Esta conjectura 
confirmada pelo estudo feito nas paginas precedentes. A primeira meno
da droga, encontra-se, como vimos, em um livro italiano: depois abundam
as noticias em livros egualmente publicados em Italia, e as referencias
 introduo pelos portos da Italia ou do meio-dia da Frana. Se bem as
menes, de que tive conhecimento e que citei, sejam do seculo XIII e
seguintes, tudo nos leva a crer que fosse conhecida no seculo XII ou
mesmo XI, pois j ento havia relaes com o Sudan. Como vimos, os
italianos comearam desde logo a usar simultaneamente de duas
designaes: a de _malagueta_ ou _melegeta_, provavelmente de origem
africana: a de _grana paradisi_ de inveno europa, e que resume em si
duas noes, a da excellencia da droga, e a da incerteza da sua patria.

De feito os italianos colheram dos mercadores africanos poucas e vagas
noticias sobre as terras centraes da Africa e as suas produces. E 
natural que assim fosse: mais occupados de interesses commerciaes, que
de investigaes scientificas, contentavam-se com fazer permutaes
vantajosas, sem inquirir meudamente a natureza e origem das drogas. De
mais, os berbres semi-selvagens, e os arabes, na generalidade pouco
mais cultos, mal poderiam esclarecel-os sobre productos, cuja origem
elles proprios talvez ignorassem, havendo-os recebido da mo dos negros.
Continuaram por muito tempo as coisas n'este estado: conhecida a droga e
louvada, mais ainda do que rasoavelmente o mereciam as suas qualidades,
ignorada a sua procedencia vegetal e geographica.

Corria o XV seculo quando os portuguezes dobraram o cabo do Bojador.
Transposta esta temerosa meta das anteriores navegaes, alongaram-se
uns aps outros e  porfia pela costa do Sahar, devassando os segredos
do mar tenebroso, e delineando nas cartas os contornos do grande
continente africano. Attingiram emfim a foz do Senegal e penetraram pelo
occidente na terra dos negros, aonde os arabes haviam chegado pelo
oriente e pelo centro. Costeando as praias da Guin, e penetrando nas
suas bahias e enseadas, subindo o curso do Senegal e do Gambia,
explorando os vastos estuarios do rio de Cacheo, ou do rio de Geba, os
portuguezes familiarisaram-se rapidamente com as principaes produces
das novas terras. Nenhuma substancia vegetal attraiu mais as attenes
do que a _malagueta_. O exame detido, que fizemos dos documentos
contemporaneos, mostrou-nos o alvoroo com que foi acolhido o encontro
da celebre especiaria, e o rapido incremento tomado pelo seu commercio,
dando o nome a uma vasta regio. Mostrou-nos tambem, o que mais nos
interessa, como os portuguezes observaram a planta, at ento
desconhecida dos povos da Europa.  certo que no encontramos nos seus
escriptos descripes acuradas e scientificas, nem o podiamos esperar:
mas patenteiam-nos um conhecimento exacto da planta, que distinguiram
bem das que produzem a _pimenta de rabo_, e a _pimenta de Guin_. Noes
mais perfeitas e rigorosas sobre a estructura da especie vegetal, no as
havia ento, nem as houve muito tempo depois, e s as encontramos nos
trabalhos dos botanicos do fim do seculo passado ou do principio d'este,
que citmos nas paginas precedentes. Ao passo que os portuguezes
observavam pela primeira vez a planta, determinavam tambem os confins da
sua habitao, descobrindo essas terras mysteriosas, at ento
entrevistas apenas atravs das obscuras e incompletas relaes dos
arabes. De feito os limites norte e sul da parte occidental da rea
habitada por aquella especie foram bem conhecidos dos portuguezes:
emquanto aos limites orientaes, se ento permaneceram ignorados, ainda
hoje esto pouco definidos. A impenetravel Africa no revelou por
emquanto todos os seus segredos, no obstante os esforos de muitos
exploradores, e o sacrificio de muitos martyres da sciencia, victimas
das inclemencias do seu clima ou da crueza dos seus habitantes.

O descobrimento da malagueta e outros productos da Africa equatorial,
alm de ter interesse puramente botanico, resultante da observao de
novas frmas vegetaes, assignala uma poca notavel na historia
commercial do mundo. Os portuguezes abrindo a esses productos o caminho
do Atlantico, vibram o primeiro golpe ao trafico dos arabes, e 
prosperidade das cidades maritimas da Italia. Desviando algumas
mercadorias dos negros das cidades de Djenni ou de Timbuktu, encetam a
lucta com os arabes que se ha de proseguir na Africa oriental, e na
peninsula Indo-gangetica, estendendo-se at Malaca, ilhas Molucas e
China. Lucta que terminou pela victoria dos portuguezes sobre os arabes
o os italianos; pela victoria do Atlantico sobre o Mediterraneo. O
grande movimento commercial do Oriente, abandonou durante tres seculos o
mar interior, para seguir o caminho apontado pelos navegadores de
Portugal dobrando o cabo de Boa Esperana. Para que nos nossos dias o
trato do Oriente voltasse  antiga via do Mar Vermelho, foi necessario
que a industria moderna levasse a cabo um intento collossal, perante o
qual haviam recuado os monarchas egypcios, e rasgasse a estreita faxa de
terra que ligava os continentes africano e asiatico.


    [1] Theophrasto menciona o +chardammon+ como procedente da India
    (Hist. pl. IX, 7, p. 147. ed. Wimmer) e egualmente o +peperi+ (H. pl.
    IX, 20, p. 162). Dioscorides falla das mesmas substancias (lib. I,
    cap. V, p. 15 e cap. CLXXXVIII, p. 298 ed. Sprengel). Veja-se tambem
    Plinio (Hist. nat. L. XII, cap. VII et XIII). Laguna, nos seus
    commentarios a Dioscorides, pretendeu identificar um dos cardamomos
    do auctor grego com a _malagueta_.  porm erro manifesto, e que no
    passou inadvertido pelo nosso Garcia da Orta (_Colloq. dos simples_
    etc., p. 50 ed. 1872). Em quanto ao +chmmon+ dos antigos,  planta
    muito duvidosa, mas parece ser o _Cissus vitiginea_ L. e em todo o
    caso  muito afastada d'aquellas especies que depois, por errada
    applicao do nome, se gruparam no genero _Amomum_. Veja-se o
    erudito commentario de Sprengel no seu Dioscorides (tom. II, p. 345,
    352 e 475). Veja-se tambem a (_Synopes pl. fl. classicae._ de C.
    Fraas, p. 198 e 278).

    [2] Serapio (_De simpl. med. opus_ etc. pars II. 327. ed. Othonis
    Brunfelsii 1531.) falla de uma droga, a que d o nome de _hab el
    zelim_ e tambem segundo a _Cyclopaedia_ de Rees e o dr. Hooker (_Fl.
    nigr._ p. 206) o de _fulful alsuadem_, (deve antes ler-se _felfel el
    sudan_ pimenta da terra dos negros). Esta substancia tem sido
    geralmente identificada com o _Piper AEthiopicum_ de Matthioli, e o
    _Piper nigrorum Serapioni_ de Bauhinio, que  uma Anonacea, a
    _Xylopia AEthiopica_ (Veja-se o que disse nas _Noticias sobre alguns
    pr. veg. da Afr. Portugueza_ no _Jornal de Sc. math._ etc. num. XXII
    1877. p. 105). A verdade , que Serapio na citada passagem se refere
    a tres substancias diversas: uma o _hab el zelim_ tambem chamado
    _Piper nigrorum_ (_felfel el sudan_): outra o verdadeiro _Piper
    nigrorum_ a que na Barbaria chamam _croni_: e uma terceira das
    terras de Chedensor chamada _habese_. Se uma d'estas subtancias  a
    _Xylopia thiopica_, as outras so de mui difficil identificao
    pela deficiencia das indicaes.

    No celebre _Canon_ de Ibn Sina (Avicenna) vem mencionado o _hab al
    zelem_ ou _hab al zelim_, que alguns referiram  droga mencionada
    com o mesmo nome por Serapio, e outros ao hab al zizi, a que os
    venezianos chamavam _dolceghini_ e que parece ser um _Cyperus_.
    (Vid. a edio de Avicenna de Benedicto Rinio, Basile 1556, nos
    indices dos nomes arabes, tanto da antiga exposio, como da
    interpretao do Bellunense, e tambem a edio de Plempio de 1658).

    Garcia da Orta falla de uma substancia, que (Avicenna) chama
    _Combubague_ e diz que essa substancia  a _malagueta_ (_Collq. dos
    simpl._ p. 51). Parece-me que o nosso auctor laborou em erro n'esta
    assero. A substancia que Avicenna chama, no _Combusbague_, mas
    _chair bawe_ como diz Clusio (_Exotiorum libri_ etc., p. 249, ed.
    1605) ou _chir hawa_ (Ed. de Plempio 1658), vinha de Sofala e era
    semelhante ao _Cacolla_, ou antes _Khakhal_, isto  a um dos
    _Cardamomos_ da India. Julgo que Avicenna se referia ou ao _Amomum
    angustifolium_ de Sonnerat, de Madagascar e da costa oriental da
    Africa, ou ao _Amomum Korarima_ de Pereira, da Abyssinia e do paiz
    dos Gallas, mas no ao _Amomum Granum paradisi_, que produz a
    verdadeira _malagueta_ e habita a Africa occidental.

    [3] Transcrevo, por curiosa, a lista das substancias usadas no
    assalto: _rosis, liliis et violis, similiter ampullis balsami,
    amphii et aqu ros, ambra, camphora, cardamo, cymino, garyofolis,
    melegetis, cunctis immo florum vel specirum genribus, quumque
    redolent vel splendescunt._ Rolandinus Patavinus. (_De factis in
    marchia Tarvisana._ Lib I, cap. XIII. ap. Muratori _Rer. It. scrip._
    t. VIII, p. 180).

    [4] _Nicolai Mirepsi Alex. medic. opus_ etc. a _L. Fuchsio_ etc. _De
    antidotis_ p. 19. Lugduni 1550.  de notar que Mirepso distingue a
    _malagueta_ do _cardamomo_ e outras drogas que entram na composio
    do seu medicamento.

    [5] _Clavis sanationis_, Venet. 1510 citado por Flck. e Hanbury
    (_Pharmac._)

    [6] Documentos citados por Flck. e Hanbury (_Pharmac._ p. 590).

    [7] Balducci Pegolotti era feitor da casa ou companhia commercial
    dos Bardi de Florena, e como tal muito versado no tracto de
    mercadorias do mediterraneo. O manuscripto do seu livro existe na
    Bibliotheca Riccardiana de Florena, e foi publicado em um tratado
    intitulado _Della decima e di varie altre gravezze imposte dal
    commune di Firenze_, cujo auctor parece ser Pagnini. No mesmo
    tractado vem inserido outro livro commercial, escripto pelo anno de
    1440 por G. da Uzzano, aonde tambem se mencionam as malaguetas.
    Veja-se uma noticia do auctor e extractos do livro na obra do
    coronel H. Yule (_Cathay and the way thither_, p. 280 e Appendix
    III).

    [8] Na _Form of cury._, manuscripto do chefe das cozinhas de Ricardo
    II de Inglaterra, do anno de 1390 vem a receita do hippocras.
    Veja-se Flk. et Hanbury (_Pharmac._ p. 479).

    [9] Diz o chronista (_Asia._ dec. I, liv. II, cap. III), sempre
    houve descobrimentos, assi como da costa donde veo a primeira
    malagueta, que se fez per o infante don Henrique. Da qual alguma que
    em Italia se havia, ante deste descobrimento, era per mo dos mouros
    d'estas partes de Guin, que atravessavo a grande regio de
    Mandinga e os desertos da Libya, a que elles chamo ahar t
    aportarem em o mar mediterraneo, em hum porto por elles chamado
    _Mundi Barca_, e corruptamente Monte da Barca. E de lhe os Italianos
    no saberem o lugar de seo nascimento por ser especearia tam
    preciosa lhe chamaro Grana paradisi, que  nome que tem entrelles.
    Sobre o conhecimento, que os portuguezes tiveram do commercio feito
    pelo interior da Africa com a terra dos negros, veja-se o que diz
    Azurara (_Chr. do desc. de Guin_, p. 364 e seguintes). Veja-se
    tambem o que diz Leo Africano do commercio feito em Mesrata, e
    outros portos ao oriente de Tripoli, isto  no longe da regio de
    Mundi barca, pelas galeras venezianas, que ahi carregavam
    mercadorias da Ethiopia (Ramusio. _Delle nav._ etc., I. p. 72.
    Venetia 1563). Das especiarias da terra dos negros falla o celebre
    viajante arabe, enumerando os objectos que compunham um explendido
    presente enviado ao rei de Fez por um grande senhor de Tensita,
    entre os quaes se incluia _certo pepe di Ethiopia_ (ibid. p. 24
    v.), e tambem na relao de um singular banquete, que lhe deu um
    chefe berbr, no qual, alm de carne de camello, e de abestruz
    assado, figurava _buona quantitad di spetie della Terranegra_ (ibid.
    p. 6). O dr. Daniell em um excellente artigo sobre os _Amoma_
    d'Africa, publicado no _Pharmaceutical joumal_, diz, que Marmol deu
    a primeira indicao definida sobre o caminho por que antigamente se
    transportava a _malagueta_ at  Europa, o que no  exacto, pois a
    primeira edio da _Africa_ de Marmol  de 1573, e a primeira dcada
    da _Asia_ de Barros, aonde vem a passsagem, to explicita, acima
    citada, publicou-se em Lisboa no anno de 1552.

    [10] _Memoria sobre a prioridade dos desc. dos port. na costa
    d'Africa occidental._ Paris, 1841.

    [11] _Life of Prince Henry_, etc. preface XXV e p. 117.

    [12] _Colleco de not. para a hist. e geogr. das naes ultram_
    etc. II p. 17. As viagens de Cadamosto, publicadas primeiro em
    italiano, e inseridas mais tarde na colleco de Ramusio, foram
    depois vertidas em portuguez pelo academico Sebastio Francisco de
    Mendo Trigoso, para fazer parte das citadas noticias dadas  estampa
    por ordem da Academia Real das Sciencias de Lisboa.

    [13] Em uma carta encontrada por Grberg nos archivos de Genova,
    publicada em 1802 (_Ann. di geogr. e statist._ tomo II, p. 385), e
    que vem transcripta na integra nas notas de Major (Life of Pr.
    Henry, p. 102). Veja-se tambem o que diz o visconde de Santarem
    (_Chr. da conquista de Guin por Azurara_, p. 449 nas notas). O sr.
    Major pe em duvida a authenticidade d'esta carta, e de feito no s
     de uma grande incoherencia de linguagem, como contm affirmaes
    de todo o ponto inexactas.

    [14] _... et venerunt Mauri de terra in suis almadiis, et
    portaverunt nobis de suis mercimoniis sc. pannos bombicinos seu
    cotonis, dentes elephantum et unam quartam mensuram de malagueta in
    grano et in corticibus suis sicut crescit, cum quo multum gavisus
    fui._ Veja-se a relao de Diogo Gomes intitulada _De prima
    inventione Guineae_, na memoria do dr. Schmeller (_Ueber Valenti
    Fernandes Alem und seine Sammlung_ etc. p. 26). Sobre a colleco
    de manuscriptos, formada em Lisboa pelo celebre typographo Valentim
    Fernandes, veja-se, alm da citada memoria, o que diz o sr. H. Major
    (_Life of prince Henry_ etc. preface XVI e p. 228).

    [15] Sobre Martinho Behaim: veja-se de Murr (_Note sur le chevalier
    portugais Martin Behaim_, trad. de H. Jansen); veja-se tambem a
    erudita noticia de Humboldt (_Hist. de la gogr. du nouveau
    Continent_, I, p. 258-283), e uma excellente memoria de Sebastio
    Francisco de Mendo Trigoso (_Memorias de Litteratura Portuguesa_, t.
    VIII, p. 365 e seguintes, ed. 1856). A data da sua viagem com Diogo
    Cam, foi fixada com muito rigor por A. M. de Castilho (_Etudes
    historico-gographiques_, 2.e etude, etc., p. 33 e seguintes).
    Encontra-se no Atlas do visconde de Santarem, I, X, a reproduco de
    uma parte do globo.

    [16] O merito de ter chegado s regies da Africa aonde cresce a
    malagueta, foi attribuido a Martinho Behaim, e foi-lhe depois negado
    e attribuido a Affonso de Aveiro por Sprengel (_Gesch. der geogr.
    Entd._, p. 376, citado por Humboldt, _Hist. de la gogr. du nouveau
    Continent_, I, p. 259). Ha aqui um erro, pois que Joo Affonso de
    Aveiro trouxe do reino de Benim no a malagueta, mas a baga do
    _Piper Clusii_, a pimenta de rabo, chamada por Martinho Behaim
    pimenta de Portugal. Demais, muito antes de Joo Affonso de Aveiro
    ter ido  costa de Benim, e Diogo Cam alm da foz do Zaire, tinham
    os portuguezes encontrado a malagueta, como se v da historia de
    Joo de Barros, da carta de Antonio da Nolle, e da narrao de Diogo
    Gomes.

    [17] Veja-se sobre Duarte Pacheco o que diz Joo de Barros (_Asia_,
    dec. I, livro VII, cap. II e seguintes), assim como Damio de Goes
    na (_Chr. d'el-rei D. Manuel_, I parte) e Cames nas oitavas 12 a 25
    do canto X.

    [18] O titulo do manuscripto  o seguinte: _Esmeraldo de Situ orbis
    feito e composto por Duarte Pacheco cavalleiro da casa del Rey D.
    Joo o II de Portugal, que Deus tem, dirigido ao muyto alto e
    poderoso principe e serenissimo senhor, o senhor Rey D. Manuel nosso
    senhor, o primeiro d'este nome que reynou em Portugal_. D'este livro
    existem duas copias, as mais completas e authenticas na Bibliotheca
    de Evora, das quaes deu noticia o distincto escriptor o sr. Rivara
    no vol. V do _Panorama_. Consultei a copia que possue a Bibliotheca
    Nacional de Lisboa, extrada de outra, que parece ter pertencido a
    D. Rodrigo da Cunha, bispo do Porto, e mais tarde arcebispo de
    Lisboa. Era para sentir, que esta importante obra se conservasse
    ainda inedita, mas julgo que em breve ser publicada, por iniciativa
    e sob a direco do sr. Joo de Andrade Corvo.

    [19] Veja-se a curiosa relao de Ramusio, sobre as informaes que
    lhe deu o piloto a quem chama _persona prita, non solamente
    del'arte dell mare, ma anchora per le lettere e per il molto legger
    di diverti auttori pieno di molta cognitione_. (Ramusio, Delle
    navig. etc. I. p. 112 V. Venetia, 1563.)

    [20] Cito a traduco publicada por ordem da Academia das Sciencias
    e feita pelo socio Sebastio Francisco de Mendo Trigoso. (_Collec.
    de not. para a Hist. etc._, II, p. 87.)

    [21] No texto italiano vem em portuguez o nome de _pimenta de rabo_,
    que era effectivamente a expresso vulgar; mas foi convertida em
    frma mais academica na verso portugueza.

    [22] A mesma noticia se encontra nas notas com que Carlos de
    l'Escluze, mais conhecido pelo nome de Clusio, enriqueceu a sua
    traduco latina do livro de Garcia da Orta (_Exoticorum libri
    decem_ etc., p. 184). Joo de Barros pelo contrario diz que el-rei
    mandou esta pimenta a Flandres, mas ahi no agradou tanto como a da
    India. Conciliam-se perfeitamente estas informaes em apparencia
    encontradas. A noticia de Joo de Barros, confirmada pelo que diz
    Garcia de Resende, refere-se ao tempo de D. Joo II, poca em que
    ainda no tinhamos attingido o termo to desejado de nossas
    exploraes, e em que o commercio das especiarias estava em mo dos
    venezianos, sendo natural que procurassemos attrair a atteno para
    os productos das terras africanas, de cujo commercio nos haviamos
    senhoreado. Pelo contrario, em tempos de D. Manuel e posteriores, j
    estava nas mos dos portuguezes o monopolio das especiarias
    asiaticas, e, dadas as doutrinas commerciaes de ento, bem se
    comprehendem as prohibies rigorosas de que falla a viagem a S.
    Thom.

    [23] Veja-se a nota 1, a pag. 7.

    [24] O texto de Pordenone  o seguinte: _In ipsa (insula Jau)
    nascuntur cubebae, melegetae, nuces que muscatae, multae que aliae
    species pretiosae_. Veja-se H. Yule (_Cathay and the way thither,
    etc._, II. Appendix, I, XVII.)

    [25] Sabemos que pelos tempos de Frey Odorico se differenavam
    perfeitamente as duas drogas. Pegolotti no seu (_Libro di
    divisameuti di paesi, etc._) inserido no tratado (_Della decima,
    etc._ III) falla das _meleghette_ e do cardamomo como de mercadorias
    diversas; a mesma distinco faz um seculo mais tarde G. da Uzzano
    no (_Libro di gabelli, etc._) egualmente inserido no (_Della decima,
    etc._ IV). Veja-se H. Yule (_Cathay and the way thither, etc._, I,
    pag. 88). A passagem de Rolandino Patavino, assim como a de Nicolau
    Myrepso antes citadas, do tambem a malagueta e o cardamomo como
    coisas diversas. Veja-se a nota a pag. 9.

    [26] Eis a passagem em que Humboldt (_Hist. de la gogr. du nouveau
    Continent_, I, pag. 258), expe esta theoria. Como as produces
    vegetaes, analogas, e que se substituem mutuamente no commercio,
    tomam sempre o mesmo nome, o de _malagueta_, to celebre no XV
    seculo, e que os pharmaceuticos transformaram em _melegueta_,
    _maniguette_ e _cardamomum piperatum_ parece-me derivar-se do nome
    indico do _pimento_, tal qual  usado na lingua de Sumatra. Acho na
    Cosmographia de Sebastio Munster (ed. de 1850 p. 1093), _lingua
    patria sumatrensis piper molaga dicunt_. O sabio auctor da _Materia
    medica of Hindoostan_, o sr. Ainslie d tambem (ed. de Madrasta,
    1813, p. 34) ao _Piper nigrum_ o nome tamul de _mellaghoo_. Em
    sanskrito _mallaja_ e _maricha_ so synonymos de _pippali_. O
    primeiro designa mais particularmente, segundo Wilson, o _Piper
    nigrum_ e o segundo o _Piper longum_. A estes nomes apontados por
    Humboldt podemos accrescentar os que encontramos citados por Garcia
    da Orta (_Colloquios dos simples, etc._, p. 172, ed. 1872),
    pertencentes s mesmas frmas, como so _molanga_, _meriche_ e
    _merois_. A semelhana de alguns d'estes nomes com a palavra
    melegueta  singular; julgo porm ser uma simples aproximao
    fortuita.

    [27] A palavra portuguesa _pimenta_ no vem da mesma origem, como
    quer o padre Raphael Bluteau no Vocabulario, fazendo-a derivar de
    _pimpilim_, nome usado no Malabar. Deriva-se de _pigmentum_, que na
    baixa latinidade significava especiaria em geral: _species
    aromatis_. Ducange. (_Gloss. ad script. med. et infim. lat. voc.
    pigmentum_.)

    [28] _Recherches sur la dc. des pays situs sur la cote occ.
    d'Afrique, etc._ p. 266.

    [29] _Mem. sobre a prioridade, etc_., p. 39, e nota 7., p. 196.

    [30] Na edio franceza da sua memoria (_Recherches sur la dc._
    etc. Paris 1842), o visconde de Santarem cita Balducci Pegolotti, e
    a passagem onde falla da malagueta (p. LXV), mas no modifica a sua
    argumentao (p. 14 e 15).

    [31] Eis o que diz Matthioli: _i grani, i quali chiamano alcuni
    meleghette per rasomigliarsi eglino (come credo io) al miglio
    indiano, il quale in alcuni luoghi d'Italia si chiama melega_ (_I
    discorsi di M. P. Matthioli etc., nei sei libri di Dioscoride_, p.
    24. Venezia, 1712).

    [32] Foi publicado na (_Storia d'Incisa, etc._ Asti, 1810) e vem
    transcripta por Michaud (_Hist. des Croisades_, II, p. 494).

    [33] Sobre a verdadeira natureza da _meliga_ e a introduco da
    cultura do milho na Europa pode-se consultar Bonafous (_Hist. nat.
    agric. et c. du mas_); e tambem A. de Candolle (_Gogr. bot.
    rais._, p. 943).

    [34]  esta a opinio apresentada pelo sr. Ernesto Renan (_Hist. des
    langues smitiques_, p. 201-202, 4.me d.), da qual, porm, se
    afastam alguns philologos, e entre outros o sr. Newman, que
    considera o berbr como um idioma semitico.

    [35] Veja-se sobre o alphabeto _tifinar_ ou _tifinag_ uma noticia do
    sr. A. Judas: (_Journal Asiatique_. Mai 1847) assim como o (_Essai
    de grammaire tamackek._) do sr. Hanoteau.

    [36] _Chron. da Conq. de Guin._ p. 83 e 365.

    [37] Diz Pomet _nous l'appellons aussi maniquette ou melaquette a
    cause d'une ville d'Afrique appele Melega d'ou elle tait autrefois
    apporte_ (_Hist. gn. des drogues_, I, 42, 2.me d.) Nicolau
    Lmery repete a mesma assero quasi pelas mesmas palavras (_Trait
    univ. des drogues simples_, p. 152. Paris, 1698); e no obstante La
    Martinire, no seu diccionario ter mostrado ser falsa, ainda se
    encontra no diccionario do sr. Littr.

    Uma derivao inversa, e que vem apontada na _Africa_ de Ogilby,
    tambem envolve um erro. Diz-se ahi: _grain coast is named
    melliguette or melli, from the abundance of grain of paradise there
    growing, wich the natives call mellegette_. Confunde-se n'esta
    passagem a costa da Malagueta, a qual de feito recebeu o nome da
    droga com a regio de Melli, situada j no centro de Africa ao meio
    dia de Timbuktu, e bem conhecida desde tempos remotos. Foi visitada
    em 1352 por Ibn Batuta, que a designa com o nome de Melle ou Mali
    (segundo a traduco do padre Moura) e figura na carta Catalan de
    1375. Cadamosto tambem a conhecia, e indica com bastante rigor o
    itinerario das caravanas, que transportavam o sal de Tagazza a
    Timbuktu e a Melli. S muito depois se comeou a usar o nome de
    costa da Malagueta e nenhuma relao tem com o de Melli.

    [38] Eis alguns dos nomes citados pelo sr. Daniell: _Attahre_ usado
    em Yorruba: _Ussorg_ em Ebo: _Anniewh_ em Accara: _Weeza_ entre os
    Ashantis: _Guetta_ e _Emaneguetta_ entre os Krus: uma variedade de
    fructos mais pequenos  chamada _Tosshan te timman_ em Serra Lea:
    _Niammakyu_ entre os negros Susus: _Bellankufo_ entre os Mandingas
    do interior; uma terceira variedade de fructos ainda menores recebe
    o nome de _Tokoto m'pomah_ em Ferno do P, e de _Dungo zargo_ e
    _Dungo zenzambah_ no Congo. Conservei escrupulosamente a
    orthographia usada pelo sr. Daniell, que no  talvez a mais
    propria, e corresponde  impresso produzida em um ouvido inglez
    pelos sons dos dialectos africanos. Barbot, citado por Daniell, diz
    que nas proximidades do cabo Lopes, se d  droga o nome de
    _Calicute_. Deve ser uma antiga designao portugueza, derivada da
    semelhana com a pimenta que vinha de _Calecut_.

    [39] O genero _Piper_ tal qual se acha constituido na monographia
    das _Piperaceae_ do sr. Casimir de Candolle (_Prodromus_, XVI, S.
    I.), inclue os generos _Chavica_, _Cubeba_ e outros, e abrange mais
    de 600 especies.

    [40] Com este nome (_poivre long noir_) a menciona Pomet, negociante
    droguista de Paris, referindo-a a uma figura bastante exacta, para
    que se no possa duvidar da identidade da especie. (_Hist. gner.
    des drogues_, p. 225, f. 140, d. de 1735.)

    [41] Os nomes de _maniguette_, _bois d'Ecorce_, _poivre d'Ethiopie_
    so dados a uma planta denominada _Waria Zeylanica_, por Fuse
    Aublet (_Hist. des plantes de la Guiane_, I, p. 605, t. 243), a qual
    sem duvida  a _Xylopia Ethiopica_.

    [42] Temos em favor d'esta opinio a auctoridade de Robert Brown
    (_Exp. to the river Zaire_, etc. Appendix. p. 469), e a no menos
    valiosa de A. de Candolle (_Prodrom_ XIII, p. 412). Fraas  de
    opinio contraria, e suppe que o _Capsicum longum_ DC, fra
    conhecido de Theophrasto. (_Synops. pl. fl. classic._, p. 160.)

    [43] Veja-se a carta de Chanca nas (_Select letters of Columbus_,
    etc., na Coll. Hakluyt).

    [44] _Simplicium medic. ex novo orbe delatorum_, traduco latina de
    Clusio inserida nos (_Exotic._ p. 343). Monardes excellente
    auctoridade pelo tempo (1565) e logar, em que escreveu, admitte a
    origem americana da planta.

    [45] Clusio nas notas a Monardes, (_Exotic._ p. 343. A numerao das
    paginas vem errada na edio de 1605 e l-se 341 mas deve ser 343).
    Na mesma nota diz Clusio, que a planta se chamava ento em Lisboa
    _pimenta do Brasil_.

    [46] Esta embaraosa confuso fazia exclamar ao antigo auctor
    Geoffroy: _Nulla res est fortasse in re Pharmaceutica magis
    litigiata quam Cardamomi notitia._ (_Tractatus de materia medica_,
    II, p. 364.)

    [47] _Spec. plant._ I p. 9 ed. Willd. 1797.

    [48] _Remedia guineensia_, p. 71. Upsaliae; citado por Flck. et
    Hanb. _Pharmac._ p. 590.

    [49] _Monandrian plants of the order Scitamineae_, etc. 1828.

    [50] Hooker (_On some afr. sp. of. Amomum. Kew gardens misc._ VI, p.
    293) vem transcripto em (_Walpert Ann. bot. syst._ VI, p. 19):
    pde-se tambem consultar (_Bot. mag._ t. 4663 e 4764 e noticias
    annexas).

    [51] Guibourt (_Hist. nat. des dr. simples_ II, p. 224. 1876).

    [52] Daniell (_On the Amoma of Western Africa. Pharm. Journal_ XIV,
    p. 312 e 356, XVI, p. 465 e 511).

    [53]  esta a opinio de Daniell, da qual se afasta um pouco Hooker,
    e tambem Flekiger e Hanbury na sua _Pharmacographia_.

    [54] Encontra-se nas ilhas de S. Thom e do Principe, aonde 
    conhecido com o nome de _Uame_.

    [55] Veja-se a noticia sobre os _Dongos do Congo_ na (_Synopse expl.
    das mad. e dr. medicinaes_, p. 30, num. 51-74) e tambem (_Apont.
    phytogeographicos_, p. 544) nos _Annaes do Conselho Ultramarino_.

    [56]  necessario advertir que estes limites se referem  planta
    espontanea, pois que se encontra cultivada no s em outras regies
    da Africa, por exemplo nas margens do rio Coango, mas ainda na
    America, em Demerara e outros pontos.

    [57] A substancia mencionada pelo capito Lyon, sob o nome de
    _Tammerat et filfil_, entre as mercadorias trazidas do Sudan ao
    Fezzan, , sem a menor duvida, a malagueta (_A narr. of travels in
    northern Africa_, etc., p. 156, 1821).

    [58] Assim Pereira suppe que o _cardamomo_ conhecido na Abyssinia
    com o nome de _Korarima_  identico ao _Amomum angustifolium_
    Sonnerat, de Madagascar, e Hanbury (_Pharm. Journ._ 1872) considera
    um e outro identicos ao _A. Danielli_ Hooker fil.

    [59] O livro de Pegolloti, j muitas vezes citado, d interessantes
    noticias sobre o commercio com o Oriente. Pode-se consultar tambem
    um curioso capitulo de Joo de Barros (_Asia_, dec. I, liv. VIII,
    cap. I), do qual se v quanto eram extensas e exactas as suas
    informaes sobre o modo porque se fazia o trafico das especiarias,
    antes de os nossos haverem dobrado o cabo da Boa Esperana; e
    egualmente o bem conhecido (_Tratado dos diversos e desvairados
    caminhos_, etc.) de Antonio Galvo.

    [60] Sobre a supposta situao do parayso e a sua vegetao, pde
    ler-se a relao de Fr. Joo de Marignolli, e as eruditas notas de
    Yule (_Cathay and the way_, etc., pp. 360 e seguintes). Veja-se
    tambem uma carta de Letronne inserida na obra de Humboldt (_Hist. de
    la gographie du nouveau continent_, III p. 118). N'esta mesma obra
    se encontram expostas e discutidas as curiosas opinies de
    Christovo Colombo sobre a proximidade em que deviam estar as novas
    terras por elle descobertas, do parayso terreal (_Hist._ etc. III,
    p. 111). Emquanto  influencia do parayso sobre a produco das
    especiarias ou substancias aromaticas, diz-nos Maudi, escriptor
    arabe do X seculo, que Ado sau do parayso coberto de folhas, e que
    estas depois de seccas, sendo espalhadas pelo vento sobre a India,
    deram origem a todos os aromas d'aquella regio. (_Les prairies
    d'or_, etc. trad. de B. de Meynard et P. de Courteille. I. p. 60). O
    prudente arabe accrescenta no entanto (Deus sabe melhor a verdade).
     curiosa a aproximao entre esta singular assero e outra muito
    semelhante que encontramos nas obras de Santo Athanasio, o qual no
    dialogo _Quaestiones ad Anthiocum_ (_Opera_, etc., n p. 279.
    Parisiis 1698), diz que a abundancia de substancias aromaticas nas
    regies orientaes ou Indicas,  devida  proximidade do parayso,
    pois o vento que d'ali sopra pde tornar fragrantes e aromaticas as
    arvores das terras visinhas _sic fragrantia quae ex paradyso
    ventorum afflatu exit, arbores locorum illorum viciniores fragrantes
    efficit._ D'estas e de outras opinies semelhantes resultou o nome
    de _grana paradysi_, dado, como vimos,  malagueta.

    [61] O godo Alarico exigia da cidade de Roma para levantar o cerco,
    um resgate no qual figurava ao lado de avultada quantia de ouro e
    prata, uma poro relativamente pequena de pimenta. Constantino
    offerecia ao papa S. Silvestre vasos de ouro cravejados de pedrarias
    contendo quantidades minimas de perfumes e especiarias. Nos
    thesouros de Chosroes II, rei da Persia, mencionava-se a existencia
    da camphora, do almiscar e do sandalo. Muitos outros exemplos, que
    seria facil accumular, provam quanto eram considerados estes
    productos de afastadas regies.

    [62] Ao periodo de grande expanso que teve o christianismo no
    oriente, e particularmente na Tartaria e na China nos fins do seculo
    XIII e comeo do seguinte, succede uma rapida decadencia, durante a
    qual quasi se apagou a sua memoria. Quando no XVI seculo os Jesuitas
    penetraram na India e na China, e to cuidadosamente buscaram os
    vestigios dos christos de S. Thom, ou tiveram pouca noticia, ou
    intencionalmente callaram os grandes servios feitos pelos
    Dominicanos, e sobretudo pelos Franciscanos, que ali os haviam
    precedido, e aos quaes s mais tarde se fez completa justia.
    Veja-se Huc (_Le christianisme en Chine_, etc., I, p. 94 e
    seguintes) e tambem o livro j tantas vezes citado de Yule (_Cathay
    and the way_, etc).

    [63] Quando o infante D. Pedro esteve em Veneza, foi-lhe ali
    offerecido um exemplar do livro de Marco Polo; o manuscripto
    original, como suppoz Ribeiro dos Santos (_Mem. de litt.
    portugueza_, VIII, p. 276, 2. ed.), ou, o que  mais provavel, uma
    copia authentica. Valentim Fernandes, no prefacio  traduco
    portugueza que depois fez, menciona esta circumstancia. Ramusio d a
    mesma indicao (_Discorso sopra la prima et secunda lettera di
    Andrea Corsali.--Delle nav._ I. p. 176 v., Venetia 1563), e
    refere-se  influencia que o livro teve em Portugal _e che'l detto
    libro dapoi tradotto nella loro lingua fu gran causa che tutti
    quelli serenissimi Re s'infiammassero a voler far scoprir l'India
    orientale, e sopra tutti il R Don Giovanni_. Por esta, ou por
    outra copia, se fez desde logo uma traduco portugueza, pois entre
    os livros de uso d'el-rei D. Duarte, figura _Marco Paulo, latim e
    linguagem em um volume_ (_Provas da Hist. Geneal_, etc. I. p. 844).
    Annos depois fez Valentim Fernandes a sua traduco, que imprimiu em
    Lisboa em 1502, obra muito rara, da qual a Bibliotheca nacional de
    Lisboa possue um exemplar.

    [64] A relao da viagem do Nicolo di Conti, foi, por ordem do papa
    Eugenio IV, dictada ao seu secretario Poggio Bracciolini e por este
    escripta em latim. Foi depois vertida em portuguez por Valentim
    Fernandes e publicada juntamente com a obra de Marco Polo, com o
    titulo _Ho livro de Nycolao Veneto_. Quando Ramusio a quiz inserir
    na sua colleco no pde encontrar o original latino, e teve de
    recorrer  verso portugueza, bastante defeituosa. (_Dell. nav._
    etc. p. 338-1563.) Depois porm se publicou a relao em latim
    juntamente com outras obras de Poggio (_De varietate fortun libri
    quatuor_-1723) e por esta fez o sr. Major a traduco ingleza
    inserida no livro (_India in the fifteenth century-Collec.
    Hakluyt_). Sobre a influencia exercida pelo livro de Conti, veja-se
    Humboldt (_Hist. de la gogr. du nouv. cont._ I. p. 216).

    [65] Primeiro mandou D. Joo II, Fr. Antonio de Lisboa, e Pero de
    Montarroyo, que por ignorarem a lingua arabica no proseguiram na
    sua viagem; depois Affonso de Paiva e Pero da Covilhan, e
    finalmente, em busca d'estes, dois judeos, Rabbi Abram de Beja, e um
    sapateiro de Lamego, chamado Jos. Veja-se o que diz Barros (_Asia_,
    dec. I, liv. III, cap. V) e sobretudo a relao muito mais detalhada
    dada pelo padre Francisco Alvares, na (_Verdadeira informaam das
    terras do Preste Joam_).

    [66] Diz Joo de Barros fallando da pimenta de rabo a qual ElRei
    mandou a Frandes, mas no foi tida em tanta estima como a da India.
    (_Asia_, dec. I, livr. III, cap. III.) Garcia de Rezende diz tambem
    da mesma pimenta da qual foi logo mandado a Frandes. (_Chron. del
    Rey D. Joo II_. pag. 43 verso. Lisboa).

    [67] Sobre as informaes que o infante tomava dos arabes veja-se o
    que diz Joo de Barros: Donde assi na tomada de Cepta como as
    outras vezes que l passou sempre inquiria dos mouros as cousas de
    dentro do serto da terra vindo a saber no s das terras dos
    Alarves e do Sahar mas tambem dos Azenegnes que confinam com os
    negros de Jalof onde se comea a regiam de Guin. (_Asia_ dec. I,
    livr. I, cap. II). Damiam de Goes falla tambem das muitas
    informaes que (o infante) cada dia tomava de mouros e azengues
    practicos nas cousas de Africa (_Chron. do Princ. D. Joam._ etc.
    cap. VII). Diogo Gomes conta que estando em Cantor, no Rio Gambia,
    ahi soubera de uma batalha travada entre dois regulos negros do
    interior, e que voltando ao reino, dera esta noticia ao infante, o
    qual lhe respondeu, que por uma carta de um mercador de Oran j fra
    informado d'aquelle successo. Prova curiosissima de quanto eram
    extensas as relaes que D. Henrique mantinha com o interior de
    Africa.

    Sobre o conhecimento que os arabes tiveram do Sudan desde o tempo de
    Ibn Haucal (X seculo), e a influencia que as noes por elles
    obtidas e transmittidas mais tarde aos christos exerceram na
    construco da carta Catalan de 1375, na do museu Borgia, e em
    outros monumentos cosmographicos, veja-se o que diz o visconde de
    Santarem (_Essai sur l'hist. de la cosm._ etc). A curiosa viagem de
    Ibn Batuta s terras do Alto Niger, em 1352, d uma ida clara das
    relaes dos arabes com aquellas regies. (_Viagens ext. e dil. de
    Abu-Abdallah_ etc. verso de fr. J. de Santo Antonio Moura. II. pag.
    140 e seguintes).

    [68] Azurara (_Chron. da conq._ etc. pag. 400). Barros (_Asia_ dec.
    I, liv. I, cap. XIV).

    [69] No mesmo anno de 1446. Azurara (_Chron._ etc. pag. 410). Barros
    (_Asia_ ibid).

    [70] Em 1448; veja-se Major (_Life of Princ. Henry_ etc. pag. 288).

    [71] Em 1454 e 1455. (_Colleco de not._ etc. II. pag. 28 e
    seguintes). As datas citadas no so as admittidas na verso
    portugueza, mas as que se encontram em Ramusio, tidas geralmente por
    mais exactas.

    [72] _Colleco de not._ II. pag. 73.

    [73] Barros (_Asia_ dec. I, livr. II, cap. II).

    [74] Barros (ibid.)

    [75] Veja-se o que diz Azurara (_Chron. da conq._ etc. pag. 158), em
    uma curiosa passagem na qual define bem o sentido em que toma a
    palavra. Pode-se consultar egualmente o admiravel capitulo, cheio de
    observaes curiosas e exactas de Joo de Barros (_Asia_ dec. I,
    livr. III, cap. VIII). Sobre o conhecimento que os arabes tiveram da
    Guin e sobre os erros commettidos em relao  sua situao
    geographica antes dos descobrimentos dos portuguezes, veja-se o
    visconde de Santarem (_Essai sus l'hist. de la cosm._ etc. I. pag.
    300) e tambem a (_Mem. sobre a prior._ etc. pag. 161 e seguintes).

    [76] _ nel libro del primo viaggio dice, que egli vide alcune
    sirene nella costa della Manegueta._ (_Hist. del signor D. Fernando
    Colombo_ etc. pag. 16. Venezia 1676). Esta biographia do almirante
    foi escripta por seu filho D. Fernando Colombo em hespanhol, vertida
    por Affonso Ulloa em italiano, e havendo-se perdido o manuscripto
    original o qual nunca fra publicado, vertida de novo em hespanhol e
    inserida na colleco de _Historiadores primitivos_ de Andre
    Gonzales Barcia. A verso italiana, de que se fizeram diversas
    edies,  por tanto a mais authentica.

    [77] _Yo estuve en el castillo de la Mina del Rey de Portugal._
    Veja-se a _Historia de las Indias_, de Las Casas, contemporaneo do
    almirante. (Navarrete. _Collection de Doc._, etc. I. LXII). Na
    biographia antes citada, escripta por D. Fernando Colombo,
    encontra-se a mesma assero. Em quanto s outras viagens, Las Casas
    diz, que o almirante _affirma haber navegado muchas veces de
    Lisbona a Guina_. As datas, porm, so duvidosas, e o proprio D.
    Fernando Colombo confessa no saber bem quando tiveram logar estas
    viagens de seu pae.

    [78]  a data marcada por Herrera (_Historia de las Ind. ocid._,
    dec. I, libr. I, cap. VII).

    [79]  evidente que a designao empregada era a usada e vulgar
    entre os portuguezes. Colombo, como antes Cadamosto, A. da Nolle e
    outros, fez as suas viagens nos navios portuguezes, unicos que ento
    se dirigiam para a Africa. O celebre genovez pelo seu casamento com
    a filha de Bartholomeu Perestrello, homem principal, e demais mui
    versado na navegao, tinha adquirido muitas relaes em Portugal, e
    to portuguez se havia tornado, que Toscanelli, seu compatriota,
    parece olvidar-se da sua nacionalidade e confundil-o com os
    portuguezes dizendo-lhe em uma carta, se no admira da sua grande
    coragem, e da de toda a nao portugueza, na qual sempre houve
    homens assinalados em todas as empresas: _Non mi maraviglio che tu,
    che sei di gran cuore, e tutta la natione Portoghese, la quale ha
    havuto sempre huomini segnalati in tutte le imprese etc._ segunda
    carta de Toscanelli a Colombo inserida na (_Hist. del signor D.
    Fernando Colombo_ etc. cap. VIII).

    Las Casas diz, do modo o mais explicito, que as viagens a Guin
    foram feitas em companhia dos portuguezes _y assi naveg algunas
    veces aquel camino en compania de los portuguezes, como persona ya
    vecina y quasi natural de Portugal_. (_Hist. de las Indias. Collec.
    de doc._ etc. t. LXII). Estas informaes colheu Las Casas da boca
    de D. Diogo Colombo, filho do almirante.

    [80] Eis as localidades mencionadas na descripo da costa da
    Malagueta por Duarte Pacheco.

    Cabo do Monte.         Rio dos Cestos.      Rio de S. Vicente.
    Cabo Mesurado.         Ilha da Palma.       Praia dos Escravos.
    Matta de Santa Maria.  Ilhos.              Lagea.
    Rio de S. Paulo.       Cabo Formoso.        Cabo de S. Cremente.
    Rio do Junco.          Resgate do Genovez.  Cabo das Palmas.

     facil definir a situao da maior parte d'estas localidades. Na
    excellente obra de A. M. de Castilho, encontram-se o _Cabo do
    Monte_, _Cabo Mesurado_, _Rio de S. Paulo_, _Rio dos Juncos_, _Rio
    dos Cestos_, _Ilha da Palma_ e _Cabo das Palmas_ (_Descr. e Rot. da
    costa occ. de Africa_, I, p. 264 a 301 e mappa VIII), situados por
    modo, que no pde haver duvida em serem as localidades mencionadas,
    com os mesmos nomes, por Duarte Pacheco.

    As outras designaes, ou no se encontram no _Roteiro_ como so a
    _Matta de Santa Maria_, os _Ilhos_, o _Resgate do Genovez_, o _Rio
    de S. Vicente_, a _Praia dos Escravos_ e a _Lagea_, ou se encontram
    applicados por modo diverso d'aquelle, que se adopta no _Esmeraldo_,
    como so o _Cabo Formoso_ e o de _S. Clemente_.

    A _Matta de S. Maria_  uma localidade bem conhecida, situada logo
    adiante do _Mesurado_, e aonde segundo a relao de Cadamosto, j
    muitas vezes citada, terminou a viagem de Pero de Cintra.

    O _Cabo Formoso_ do _Roteiro_ de Castilho no pde ser o _Cabo
    Formoso_ do Esmeraldo. De feito o primeiro, a _Ponta Timbo_ de
    algumas cartas (_Rot._ p. 276), fica ao norte do _Rio dos Cestos_;
    em quanto que o do _Esmeraldo_ demora muito ao sul, a 7 leguas da
    _Ilha da Palma_, e ainda ao sul dos _Ilhos_. Deve corresponder 
    _Ponta de Baffa_ ou  _Ponta Tassou_ (_Rot._ p. 282). No ha erro da
    parte de Duarte Pacheco em o collocar n'esta situao, pois temos
    uma prova de que segue a nomenclatura usada no seu tempo. Na carta
    de Joo Freire, de 1546, vem do mesmo modo _Ilha da Palma_, _Ilho
    Cayado_ ( um dos ilhos citados no Esmeraldo, e ahi se diz, que
    eram muito brancos, d'onde lhe veiu o nome) e depois _Cabo Formoso_,
    por tanto na mesma successo que adopta o nosso auctor.

    Segue-se o _Resgate do Genovez_, assim chamado porque um marinheiro
    genovez foi o primeiro que ahi resgatou malagueta, dever
    collocar-se nas proximidades de _Battoa Grande_ (_Rot_. p. 284).

    O _Rio de S. Vicente_  talvez o _Rio do Sino_ (_Rot._ pag. 285): em
    quanto  _Praia dos Escravos_, que tinha, no dizer de Pacheco, duas
    leguas de extenso,  sem duvida a parte do littoral aonde vem
    desembocar os pequenos rios _Dru_, _dos Escravos_ e _Ferroowah_
    (_Rot._ pag. 290 a 292).

    A _Lagea_, rochedo separado da costa coisa de um quarto de legua,
    pde com alguma duvida, identificar-se com o _Carpenter rock_ ao mar
    da _Ponta de Setre_ (_Rot._, pag. 293).

    Em quanto ao _Cabo de S. Clemente_, tambem no concorda a sua
    posio com a que vem no _Roteiro_: Castilho d este nome  _Ponta
    de Battoa Grande_, sendo certo que o _Cabo de S. Clemente_ de Duarte
    Pacheco fica muito para o sul, e j proximo ao _Cabo das Palmas_.
    Deve, me parece, corresponder  _Ponta dos Bretons_ ou  de _Fish
    town_. (_Rot._ pag. 297). Na carta de Freire, que no vi, mas de que
    o visconde de Santarem transcreve os nomes por sua ordem (_Mem.
    sobre a prior._, etc., pag. 213) vem por estas alturas o _Cabo do
    Sacramento_; haver erro de leitura e ser _Cabo de S. Cremente_ com
    a orthographia ento usada? N'este caso a nomenclatura de Freire
    estaria mais uma vez de accordo com a do _Esmeraldo_.

    As latitudes ou graos de ladeza dadas por Duarte Pacheco no se
    afastam muito das que hoje se admittem. Sendo para notar que as
    citadas no texto differem s vezes das que esto reunidas em uma
    taboada geral, o que sem duvida  devido a erros de copia. As que se
    referem  parte da costa que nos occupa so as seguintes:

             No _Esmeraldo_        _Roteiro_ de Castilho
        Cabo do Monte     6 40'           6 44'
        Cabo Mesurado     6 20'           6 19'
        Rio dos Cestos    5 30'           5 26'
        Cabo das Palmas   4               4 22'

    A divergencia maior no _Cabo das Palmas_,  devida sem duvida, a ter
    o copista omittido os minutos.

    Estas aproximaes foram feitas rapidamente e de modo algum as tenho
    por seguras, pois levantam no poucas difficuldades, cuja discusso
    saria completamente do plano n'este trabalho.

    [81] Com quanto todo este trabalho se prenda  questo to disputada
    da prioridade do descobrimento da costa occidental da Africa, e
    particularmente d'esta costa da Malagueta pelos portuguezes, mui
    deliberadamente a no tenho querido tratar, porque, com prefeita
    sinceridade e desprendido de todo o falso patriotismo a julgo fra
    de contestao. No entanto, no posso deixar de recordar que Villaud
    de Bellefond, diz do Rio dos Cestos, que fra assim chamado pelos
    portuguezes: _a cause d'une espce de poivre qui y croit, quils
    appellent sextos:_ e em outra parte, fallando dos negros da Costa,
    diz: _le peu de langage qu'on peut entendre est franais. Ils
    n'appellent pas ce poivre sextos a la portugaise, ni grain a la
    hollandaise, mais malaguette._  difficil accumular tantos e to
    palmares erros em to poucas palavras! Pena  que estas ridiculas
    asseres fossem admittidas por escriptores serios e de boa nota.

    [82] Veja-se a p. 25.

    [83] Taes foram as viagens feitas pelos hespanhoes no anno de 1475,
    de que falla D. Diogo Ortiz de Zuniga (_Annales ecl. y sec. de
    Sevilla_, p. 373. Madrid, 1677); e outras levadas a cabo, ou
    projectadas, no anno de 1478, a que se refere um documento citado
    por Navarrete (_Coll._ t. II, pag. 386). Mas logo no anno seguinte
    de 1479, feitas as pazes com Hespanha, se reconheceram os direitos
    de Portugal ao exclusivo do commercio de Guin. Veja-se tambem em
    Garcia de Rezende (_Chron. d'elrey D. Joo III_, cap. XXXIII e cap.
    LXXIII) a relao das duas embaixadas enviadas a Inglaterra em
    resultado dos preparativos, feitos por Joo Tintam e Guilherme
    Fabiam, por ordem do duque de Medina Sidonia, para passar a Guin,
    no anno de 1481; e annos depois, no de 1484, em virtude de egual
    tentativa do conde de Penamacor. Em um e outro caso foram desde logo
    dadas ordens expressas para que taes viagens no tivessem logar,
    sendo mesmo o conde de Penamacor encarcerado na torre de Londres.
    Sobre estas e outras reclamaes diplomaticas, veja-se o que diz o
    visconde de Santarem (_Recherches sur la dc._, etc., p. 198 a 222).

    [84] (_Annaes de el-rey D. Joo III_ por fr. Luiz de Sousa,
    publicados por Alexandre Herculano, p. 374.) Os plenipotenciarios
    francezes, cujos nomes citei com a orthographia usada nos Annaes,
    eram: Antonio du Prat, chanceller de Frana, que abraando em edade
    j avanada o estado ecclesiastico, veiu a ser arcebispo de Sens,
    cardeal e legado a latere: o bem conhecido Anne de Montmorenci, que
    ento ainda no fra elevado  dignidade de condestavel, sendo
    simplesmente gro mestre: e provavelmente Joo de Gontault, baro de
    Biron, que consta fra empregado em misses diplomaticas junto do
    imperador e do rei de Portugal. No entanto no o encontro entre os
    almirantes de Frana, sendo este cargo desempenhado, na data das
    negociaes, por Philippe de Chabot, conde de Charny:  porm
    possivel, que exercesse as funces de almirante temporariamente e
    no impedimento do titular.

    Estas negociaes sobre as viagens dos francezes, e as cartas de
    marca, continuaram por muito tempo, passando a Frana o conde da
    Castanheira, e depois Bernardim de Tavora. Este ultimo levava, ao
    que parece, instruces para offerecer ao chanceller, ao gro-mestre
    e ao almirante, quatro mil cruzados a cada um, em cada anno, para os
    dispor melhor em favor dos interesses de Portugal. Veja-se (_Ann.
    d'el-rei D. Joo III_. p. 370 e 379), e o que diz o visconde de
    Santarem (_Recherches sur la dc_. etc. p. 216 e seguintes).

    [85] Os capitulos de concerto foram passados a 11 de julho de 1531.
    Mais tarde os nossos direitos foram tambem reconhecidos no tratado
    concluido em Lyo a 14 de julho de 1536, e nas cartas patentes de
    Francisco I, datadas de Valena e de Lyo de 8 e 27 de agosto do
    mesmo anno. Veja-se o visconde de Santarm (_Recherches_, etc., pag.
    219).

    [86] Em um extenso e curioso despacho, de que vi o original na Torre
    do Tombo (_Corp. Chron_. p. I, mao 47, doc. 75).

    [87] Veja-se (_Delle nav. et viagg._, etc. III, p. 417, v. ed. de
    1565).

    [88] _Annaes d'el-rey D. Joo III_, p. 306.

    [89] (Ibid., p. 404.) Deve-se notar, que o conde se no refere
    unicamente ao trato da droga, mas ao commercio de toda a costa, pois
    a palavra malagueta significa aqui a regio e no a especiaria.
    Encontra-se muitas vezes, nos escriptores d'aquelle tempo, empregada
    a expresso _a malagueta_, por costa da Malagueta.

    Se este documento , como parece, do anno de 1542, segue-se que as
    viagens dos francezes haviam comeado pelos annos de 1513 ou 1514,
    um pouco mais cedo do que suppe o visconde de Santarem
    (_Recherches_, etc., pp. 213-223).

    [90] As narrativas d'estas viagens, publicadas por Eden e outros,
    foram depois reunidas na importante colleco de Hakluyt. No tive
    esta obra  minha disposio, e s pde consultar a verso franceza
    m e incompleta, que faz parte da (_Hist. gn. des voyages_, etc. II
    p. 242 e seguintes. Paris, 1746).

    [91] Penteado tinha feito viagens a Africa, sendo mesmo encarregado
    da guarda da costa da Malagueta, antes de passar a Inglaterra,
    aggravado por uma priso que julgou injusta. Dos esforos feitos
    pelo infante D. Luiz para que voltasse ao reino, se deduz que era
    pessoa de importancia. Foi victima n'esta viagem dos maus tratos e
    dissabores, porque o fizeram passar os inglezes.

    [92] A _bota_ ou antes _botta_, segundo a orthographia proposta por
    Duarte Nunes de Leo, correspondia a duas teras partes de uma pipa.
    Dava-se tambem este nome a um barril grande ou barrica d'aquellas
    dimenses. Em barricas se trazia ento habitualmente a malagueta.
    Joo Lok, trouxe em 1554 _thirty six butts of graines_. O _butt_ 
    uma barrica da capacidade de cento e vinte e seis galles.

    [93] O visconde de Santarem cita brevemente este despacho, e diz que
    elle fixa a poca em que a primeira malagueta foi levada ao mercado
    de Ruo. Do theor do despacho no resulta bem claramente que fosse a
    primeira vez, e unicamente se v que no era um acontecimento vulgar
    e corrente.

    [94] ... _a very hote fruit, and much like unto a fig, as it groweth
    on the tree_. (Hakluyt II, p. 12, citado por Daniell.)

    [95] _They grow a foot and a half, or two foot from the ground, and
    are red as blood when they are gathered. The graines themselves are
    called by the Physicians Grana Paradisi._ (Ibid. p. 22, citado por
    Daniell.)

    [96] J fiz notar que esta assero, referindo-se a uma poca
    posterior perto de um seculo ao descobrimento d'aquella parte da
    costa, nenhuma importancia tem relativamente  primitiva origem do
    nome.

    [97] _Annaes d'el-rei D. Joo III_, etc., p. 378.

    [98] (Ibid. p. 401). Esta venda foi talvez realisada nas feitorias
    de Flandres, que ainda ento existiam, sendo n'este anno feitor
    Jorge de Barros: a feitoria de Flandres s foi desfeita no anno de
    1549.

    [99] Flkiger and Hanbury (_Pharmacographia_ p. 592.)




Notas de transcrio:

Foram encontrados e corrigidos alguns erros de impresso que no tm
influencia no significado das frases.

No original existiam algumas palavras em grego, que nesta verso no 
possvel representar. Essas palavras foram transliteradas para caracteres
latinos e rodeadas pelos caracteres ++, ex. +peperi+.





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Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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